RPG, Streaming e Espaço Cênico



Olá, pessoas! Como estamos hoje? Eu estou absolutamente pirada (no bom sentido), agora que comecei a minha primeira experiência com RPG streamado. O pessoal do Perdidos no Play resolveu fazer uma campanha de Pathfinder 2 - que começou no playtest, mas já migramos para o oficial. Fui convidada a participar do jogo (valeu, gente <3 ) e, para a minha surpresa, aceitei. Digo para a minha surpresa porque eu nunca me senti confortável em jogar RPG diante de pessoas que estão ali para efetivamente ficar assistindo. Participar de uma mesa de RPG é, para mim, bem diferente de estar no palco - existe uma relação mais pessoal e mais íntima entre quem joga e os personagens...talvez por isso eu me sinta tão exposta quando, por exemplo, jogo em um evento ou em um lugar público e alguém pára pra ficar olhando.


Outro ponto que se mostrou um desafio gigantesco foi ter que lidar com a câmera. Além da questão imediata de “SEM-OR PRA ONDE EU OLHO???? NÃO CONSIGO ME MEXER!!!”, eu sou uma pessoa do palco, e não é que eu não tenha interesse por teledramaturgia, porém quase todas as vezes que tive que lidar com câmeras acabei com crises de ansiedade e problemas com a minha auto-imagem. Porém, era uma experiência nova e, como eu gostaria de escrever sobre o tema que dá título a esse post, imaginei que vivenciá-lo não só como espectadora, mas também como jogadora, poderia me trazer uma outra perspectiva sobre o assunto - e trouxe!


Acho que a primeira coisa a considerar é que quando jogamos um RPG estamos em um espaço cênico - pois há ali um encontro de pessoas e uma encenação lúdica, entretanto ele é puramente experimental: não existe a intenção de mostrar aquilo para alguém. Também, o que aconteceu em um dia não será repetido e não há compromisso com um público. O foco encontra-se unicamente nos interesses daqueles que estão participando diretamente da narrativa. Isto é: nós, que estamos na mesa, nos observamos e interagimos uns com os outros.

Quando vamos para o ambiente da stream, o nosso espaço cênico deixa de ser um experimento pessoal, uma vez que não interessa somente o quanto quem joga está entretido e engajado. Estamos exibindo a nossa experimentação, portanto o público precisa se sentir envolvido com ela também.


Até o momento não sei dizer como isso acontece - se basta jogar como se eu estivesse jogando com meus amigos aqui na sala da minha casa ou se é preciso algo mais (aliás, o que vocês acham?). Ainda assim, existe uma possibilidade de interação e comunicação gigantesca: a platéia interage com os jogadores que estão em cena e interage entre si de forma bastante direta - o que não é muito comum de se ver em um teatro de dramaturgia tradicional - e mesmo em espetáculos de improviso como o Improvável dos Barbixas, por exemplo, a interação com o público é mais indireta. Em algumas lives que assisti, existe até mesmo a possibilidade de o público afetar diretamente a narrativa! Gente, vocês tem noção do quanto isso é doido? As streams de RPG estão criando um espaço cênico completamente novo!


Sobre o espaço cênico, vamos pensar, por exemplo, nas streams de mesas virtuais: quando jogamos em mesas presenciais, o espaço cênico é uno. Estamos todos reunidos em um único espaço físico e sujeitos, praticamente, às mesmas interferências. Na mesa virtual a gente lida com um multi-espaço. Temos o espaço de jogo, que seriam os aplicativos utilizados para comunicação, rolagem de dados, fichas e afins em intersecção com o espaço individual de cada jogador: cada um tem um espaço diferente, com interferências e restrições diferentes. Isso modifica a nossa relação com o jogo.



Voltando a pensar em público: outro ponto que é bem próprio da platéia RPGística (e também pode ser da platéia teatral, dependendo do espetáculo) é que, de modo geral, quando se fala especificamente em entretenimento a gente não pensa em um público intelectualmente ativo. Quando assistimos a um jogo de futebol ou a um filme dos Vingadores, por exemplo, não precisamos pensar sobre o que estamos vendo ou fazer qualquer tipo de esforço intelectual para apreciar a obra.


Como jogadores de RPG nós precisamos fazer esse esforço e quando tiramos o RPG da esfera do entretenimento pessoal, daquele pequeno grupo, e levamos para o entretenimento público, a gente quase que automaticamente cria uma forma de lazer que exige exercício intelectual: quem está assistindo precisa minimamente fazer o esforço de imaginar o que está sendo contado - uma vez que não jogamos com o literal/ilustrativo e sim com o imaginário. O público se entretém imaginando a narrativa e, por vezes, participando ativamente da construção da história e dos personagens, além de interagir com os jogadores.


Sobre a performance artística, o ator Yoshi Oida em O Ator Invisível, usa uma analogia que gosto bastante. Grosso modo ele diz que os atores em cena devem ser como marionetes cujos fios devem estar sempre tensionados e mantendo-se invisíveis para que o público se sinta envolvido. No caso do RPG streamado é interessante deixar os espectadores enxergarem os fios da marionete - entender como ela funciona, como ela se move: é aí que estão os elementos jogo e jogador. Existe uma oscilação constante entre mostrar os fios - com o jogador tomando decisões e/ou interagindo com o chat, e escondê-los - quando o jogador narra as ações do personagem e entra em ação dramática (falas e interações).


Outro questionamento que surgiu foi sobre o propósito da stream: quando a gente faz live de RPG, a gente quer mostrar uma história dramática ou o jogo que faz a história acontecer? Eu acredito que seja o jogo. Quando jogo RPG eu não quero apenas assistir a saga do Frodo destruindo o um anel. Eu quero ativamente participar disso, modificar, fazer escolhas e conduzir a história através dos elementos de jogo. Por isso, na nossa brincadeira, a gente entra e sai do personagem. A gente responde aos estímulos da mesa. Como público, é isso que quero ver quando assisto uma mesa streamada - e se possível, participar.


Se, no meio disso, tentamos passar uma ideia de linearidade dramática, a coisa deixa de ser RPG e passa a ser qualquer outra coisa mais próxima do teatro e da dramaturgia tradicional. Na minha opinião, exibir o jogo é fazer o público vivenciar a nossa experiência em três camadas: através dos olhos do personagem, do jogador que comanda o personagem, e da própria platéia. A quarta parede - um elemento tão presente na dramaturgia convencional - é praticamente inexistente, uma vez que estamos constantemente reconhecendo a existência do público e - com frequência maior ou menor - nos comunicando diretamente com ele.


Outra inquietação que me surgiu foi: como jogadora de RPG, eu procuro uma imersão minha no jogo, sem necessariamente me sentir na obrigação de deixar essa imersão transparecer. Posso me dar o luxo de ser introspectiva. Será que em uma mesa streamada isso funciona? Pensando do ponto de vista da performance, talvez seja preciso que o público entenda ou ao menos veja como eu vivencio e/ou enxergo aquela realidade.

Parafraseando um questionamento de Yoshi Oida (já que ele já foi citado, né) e trazendo pro nosso meio, o que é mais interessante para a stream de RPG: um jogador que enxerga a Lua ou um jogador que mostra a Lua pra quem está assistindo? O fato de eu conseguir visualizar algo não significa, necessariamente, que quem está me observando naquele momento, vai ver o que estou vendo. Como mostrar? Aliás, é preciso mostrar?

Sim, são muito mais indagações do que respostas. Até o momento que terminei este artigo, eu não tinha nada conclusivo - e pessoalmente acredito que neste caso não deva existir somente uma resposta correta ou uma única possibilidade.

O jeito é seguir pensando e repensando! Bora trocar ideia! <3

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