O Samurai nos RPGs



Os samurais permeiam a cultura mundial já há muitas décadas. Existe um grande fascínio pelos seus ideais, códigos de conduta e habilidades marciais. A visão idealizada que temos do samurai, além de construída por meio da ficção, também se inspira em momentos chave da história japonesa. Vamos dar uma olhada em como samurais são apresentados em diversos jogos, e de onde vem esse imaginário tão poderoso que perdura já por séculos.


Samurais na vida real

Samurai significa algo como "servo" ou "aquele que serve". Ironicamente, o kanji utilizado para samurai é o mesmo para o verbo "esperar". O que se sabe dos primeiros samurais é que os donos de terras (e de seus grãos) precisavam de pessoas para guardá-las. Em troca, esses homens recebiam estipêndios, pedaços de terra e outros privilégios.


Essa classe de guerreiros foi se especializando cada vez mais em manter a ordem e em travar guerras em nomes de seus "patrões". Estratégias militares foram desenvolvidas, artes marciais começaram a ser passadas de geração em geração.



Os samurais viriam a se tornar, em certo sentido, tão ou mais nobres que os senhores que defendiam em primeiro lugar. Principalmente durante os períodos conhecidos como xogunatos, quando um ditador militar tinha mais poder político que o próprio imperador.


Com o passar do tempo, a classe samurai moldaria o bushidô, código de honra no qual a honra e a lealdade valem mais que a própria vida. O bushidô é para o samurai o que os códigos de cavalaria são para os cavaleiros europeus, em certa medida, mas com valores muito distantes do cristianismo. As bases fundamentais que deram origem ao bushidô são o zen-budismo, o confucionismo e o taoísmo. Por isso, o valor da vida muitas vezes é secundária para um samurai, se não estiver acompanhada de honra e caráter inegociáveis.


As sete virtudes do bushidô são: integridade, coragem, compaixão, cortesia, sinceridade, honra e lealdade. Algumas interpretações se apegam mais a algumas virtudes do que outras.


Os cinco anéis

Lenda dos Cinco Anéis, cuja quarta edição foi publicada no Brasil pela editora New Order, traz o imaginário samurai para um mundo de alta fantasia chamado Rokugan. A grande saca está em fazer pelos samurais o que D&D e outros RPGs fizeram pelos guerreiros ocidentais: em Rokugan, temos castas nobres de samurais convivendo com camponeses e travando guerras, mas sem perder de vista os feitiços mágicos e as criaturas sobranaturais do folclore oriental.



Além dos bushi e cortesãos, que são figuras já famosas na história do Japão e na cultura popular, há também os shugenja. Sacerdotes da casta samurai que pedem aos kami por milagres mágicos. Os shugenja são uma criação totalmente original para o RPG, não havendo muitos relatos de figuras religiosas desse tipo na casta samurai. O mais próximo disso seria o onmyouji, uma espécie de adivinho muitas vezes consultado por senhores feudais antes de se tomar decisões importantes.


Em Rokugan, há uma enorme muralha (sim... você já viu isso em algum lugar!) que separa o Império de uma região contaminada por demônios, conhecida como Terras Sombrias. Neste mundo, os oni e outras criaturas das trevas estão totalmente relacionadas com esse lugar, e o Império luta ativamente contra elas. Aqui, o Império foi fundado pelos próprios deuses que desceram dos céus, e cada clã representa um ideal do bushidô aos olhos de um deus específico.


O Clã Escorpião, por exemplo, é muito conhecido por suas intrigas e planos desonrados, mas como sua devoção principal é ao ideal de lealdade, o que importa para os samurais do Escorpião é manter o Império de pé a qualquer custo, nem que seja preciso sujar as mãos para isso. O clã Leão, mais arraigado ao príncipio da honra acima de tudo, discorda bastante dos Escorpiões. Há muito espaço para interpretações divergentes sobre o bushidô, e por isso L5A é tão famoso por campanhas que enfatizam o drama samurai. Nem sempre seu senhor tem o melhor dos interesses para o Império, e você deve tomar seu lado em nome não só da sua honra, mas também da sua família e dos seus antepassados.


Muitas vezes, não importa como um samurai aja, o que o espera é o seppukku, porque os dilemas acabam sendo paradoxais e impossíveis de serem solucionados.

Servos de Lin-Wu

Em Arton, temos um samurai um pouco diferente. Aqui, samurais são como guerreiros sagrados, paladinos. Em vez de cultuarem um deus ou algum valor de heroísmo tipicamente ocidental, os samurais de Tamu-ra defendem o próprio conceito de honra e são fiéis a Lin-Wu, deus que representa esse conceito. Várias habilidades do samurai em Império de Jade estão intrinsecamente relacionados à sua honra. Os shugenja funcionam de forma parecida, sendo "clérigos da honra". Ou seja, dificilmente há samurais e shugenjas desonrados em Arton, e se há algum, eles são objetivamente menos poderosos.


Isso difere um pouco dos samurais de Rokugan. Há menos espaço para discussões filosóficas e dilemas morais em Tamu-ra. Como a honra é uma força tangível (inclusive, detectável de forma sobrenatural por samurais e shugenjas), é mais difícil encontrar membros da nobreza desonestos e traidores. Apesar disso, ainda não é impossível encontrar um samurai com segundas intenções — afinal, se um samurai tem a honra muito alta, ele pode se permitir perder um pouco dela para realizar algum ato mais egoísta sem quase ninguém perceber.


Embora o jogo por si só não aponte isso, como a honra é um pilar mensurável e objetivo que molda toda a sociedade tamuraniana, alguns nobres podem facilmente instrumentalizarem a honra, mantendo-a alta apenas por conveniência para que possam perdê-la depois quando julgarem necessário.


Se você ainda não tinha pensado num vilão assim para sua campanha de Império de Jade, fica aqui a sugestão.


Sangue e Honra!!!

John Wick, o criador de Lenda dos Cinco Anéis, anos mais tarde criaria um outro RPG sobre samurais: Blood & Honor. Se L5A já apela para histórias de forte drama samurai, em B&H, isso é elevado à última potência.


Com mecânicas mais centradas na narrativa, pelas quais até os jogadores podem criar a história junto com o narrador, B&H sugere deixar a alta fantasia de lado e focar apenas nos dilemas de dever e honra.Aqui, os atributos são os sete princípios do bushidô. Os jogadores criam seu próprio feudo e senhor feudal, cada um assumindo um papel diferente como conselheiro. Fica a critério da mesa se a região criada vai ter alguma fidelidade ao Japão real ou se será um lugar totalmente fictício.


Neste jogo, o feudo é o verdadeiro protagonista. Personagens podem ir e vir, muito provavelmente morrendo ou se matando, mas a graça está em fazer o feudo prosperar e até prevalecer sobre outros inimigos. Como a narrativa é colaborativa, a história pode ser mais densa e séria, imitando as histórias clássicas de samurai, ou pode até ser mais leve e descontraída. Vale praticamente tudo.



Mercenários cyberpunk

No futuro distópico do Sexto Mundo, há um tipo de mercenário conhecido como samurai urbano. Apesar do nome, um mercenário com essa alcunha não necessariamente usa katanas contra as megacorporações. Na verdade, samurais urbanos podem usar quaisquer tipos de arma, sendo similares aos samurais feudais apenas no fato de que são guerreiros muito capazes e versáteis.


Além disso, apesar do nome "samurai", a conduta da maioria deles está mais próxima dos ronin. Ronin eram samurais sem senhor, que vendiam sua espada àquele que pagasse mais para que pudesse sobreviver. Muitos samurais urbanos do Sexto Mundo se encontram em uma situação análoga a dos ronin: vendem seus serviços, normalmente violentos, a clientes que possam pagar uma boa grana. Apesar do trabalho, alguns samurais urbanos tentam conversar ideais de honra e justiça, principalmente contra os grandes conglomerados que exploram as pessoas, mas sabe como é... A vida não é fácil pra ninguém, e entre preservar valores e ter o que comer, a escolha muitas vezes é a mais óbvia.


O valor da vida de um samurai

Seja qual for o jogo, até aqueles como Shadowrun onde apenas o nome desses guerreiros é usado, a imagem do samurai é poderosa porque evoca a ideia de que há coisas na vida que valem mais do que a mera sobrevivência. Por esses ideais, vale a pena matar e morrer. Um samurai honrado muitas vezes é demonstrado como aquela pessoa que não mata por prazer ou crueldade, apenas como último recurso e por ser inevitável. Da mesma forma, apesar da fama de suicida, um samurai nunca joga sua vida fora de forma leviana, já que sabe que é importante para seu senhor feudal, recorrendo à morte apenas para protegê-lo ou para limpar alguma vergonha indefensável.


Mesmo que não haja samurais no mundo da sua mesa, você pode se inspirar nesses ideais para criar um excelente paladino, cavaleiro ou guerreiro. Não à toa, o bushidô atravessou vários séculos e se tornou reconhecido em todo o mundo.

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