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Eu sou meu próprio gatilho — Relato de uma jogadora de RPG ansiosa




Já faz algum tempo que eu queria escrever alguma coisa sobre jogo seguro — mas não sabia exatamente o que. O assunto já foi tão abordado que eu sinceramente não sabia no que eu poderia contribuir sem soar repetitiva. Mas esses dias veio um estalo — de forma não muito confortável (mais pra frente vocês vão ver). As discussões sobre jogo seguro giram bastante em torno do contrato social — de estabelecer limites entre os jogadores e saber respeitá-los de modo que as relações interpessoais e que a relação jogador-personagem se mantenha saudável. Isso, claro, é de extrema importância. Principalmente quando a temática do jogo é mais séria e pode acabar ativando gatilhos de traumas e/ou outras situações que nos deixem desconfortáveis.


Mas e quando o maior risco para a sua segurança é você mesmo? O que fazer quando você é o seu próprio gatilho? Eis o que acontece comigo.


Para explicar o que quero dizer, acredito que seja necessário me expor um pouco — assim, talvez outros jogadores que passam pelas mesmas angústias, e que fazem a si os mesmos tipos de cobranças e julgamentos que eu faço a mim, possam sentir que não estão sozinhos. AVISO: Esse texto pode conter excesso de informação pessoal. Se isso te deixa desconfortável, sugiro que pare por aqui.


Então vamos lá, admitir uma coisa que não é muito glamourosa e que ainda passa por muito preconceitos: eu tenho transtorno de ansiedade com síndrome do pânico e também sofro da síndrome do impostor. Mas no que isso é relevante para o assunto?


Como mencionei nesse post, estou participando da campanha de Pathfinder 2 com o pessoal do Perdidos no Play. Aliás, estou adorando a experiência toda — tem me ajudando a superar muitos desafios, limitações pessoais e de quebra me trouxe novas ideias. Ao final da última sessão que eu joguei (escrevi esse artigo logo depois dela, foi o episódio 04), fui surpreendida pelo narrador Noper com um flashback do background da Lani, minha personagem. Eu fui pega desprevenida — mas na hora tava tudo certo: era só mais uma situação de improviso para a qual eu não estava devidamente preparada (ou pelo menos era o que eu achava até escrever isso). A cena foi rolando e, honestamente, no momento gostei bastante de interpretá-la: teve uma pegada bem séria e ainda era o ponto de vista de uma criança. Gente, quem me conhece sabe: eu sou a louca do drama. A-D-O-R-O um drama.


Fim de sessão. Fechamos a stream, demos aquele tchauzinho e aí simbora tocar a vida do cidadão mediano. O problema é que assim que tudo acabou, veio a danada: a senhorita ansiedade, também conhecida como Anapoli: a Poliana reversa que ao invés de enxergar só o lado bom das coisas fica te mostrando o quanto tudo é péssimo, e que tenta te convencer que você é horrível em tudo que faz e que todo mundo te odeia e/ou está te julgando (e talvez esteja mesmo, mas a dona Anapoli faz a gente se preocupar excessivamente com isso).


Em momentos normais, ela é só uma voz pequenininha no fundo da cabeça, que não interfere significativamente no dia a dia. Dá até pra mandar ela calar a boca e ficar na dela - ela não vai ficar efetivamente sem dizer nada, mas pelo menos vai falar baixo o suficiente pra ignorar. O problema é que, com os perrengues da vida, as vezes a criaturinha fica um pouco descompassada e resolve que vai gritar e fazer birra…e quando isso acontece a gente fica impotente (a gente, porque sei que não sou a única pessoa no mundo que passa por isso).


Não foi a primeira vez que senti isso em uma mesa — e infelizmente não será a última. Anapoli consegue transformar coisas banais em grandes tragédias — falhas críticas sem solução, que vão levar a algo absolutamente inevitável, como aquele grupo que você gosta nunca mais te chamar pra jogar, ou te expulsarem da mesa. Ela vai tentar a todo custo impedir que você aproveite as coisas que você ama.







Então, naquele momento eu estava convencida de que a minha interpretação havia sido péssima — e comecei imediatamente a pensar em mil e uma coisas que poderia ter feito melhor ou dito melhor, ou agido diferente. Se eu estivesse no comando, usaria isso como aprendizado e bola pra frente. Mas era a idiota da Anapoli — e pra ela aquilo era terrível! Por causa dela, eu fiquei inquieta, pensando mais do que deveria no que os outros estariam pensando ao meu respeito e criando uma situação mirabolante que só existia na minha cabeça sobre o quanto eu havia decepcionado os jogadores, quem estava assistindo e o próprio narrador e no quanto eu não atendia a nenhuma expectativa.


Gostaria de ressaltar que a informação citada acima não é uma busca por tapinhas nas costas. Não quero forçar elogios, não quero confete e não estou propositalmente me rebaixando pra alguém vir e falar que sou boa em algo — até porque esse sentimento independe da qualidade dos feedbacks, sejam eles negativos ou positivos. Quando eu estou no comando, eu reconheço no que sou boa e me dou os devidos créditos. Eu sou capaz de analisar tudo de forma técnica e reconhecer o que foi bom, o que foi ruim e o que pode melhorar. Eu gosto das coisas que faço e fico feliz com elas: meus personagens, meus artigos, os jogos que participo, etc — eu me divirto e me faz bem. Isso tudo é só pra mostrar que pode parecer ridículo, mas é o que acontece quando se tem uma Anapoli. Mas qual então qual foi o gatilho? Acredito que tenha sido a tal da situação de improviso para a qual eu acreditava não estar pronta.


Já mencionei em outros momentos, mas o improviso sempre foi um grande desafio para mim — não só como atriz, mas na vida. Eu tento estar preparada para tudo. Sou aquela pessoa que sabe todas as coreografias, todas as músicas, todas as falas do espetáculo e que apresenta seminários com um texto decorado teatralmente que inclui até mesmo os próprios vícios de linguagem pra deixar a coisa fluida e natural (ok, esse último eu já superei, mas vocês entenderam). No caso da cena no jogo em questão, eu enfiei na minha cabeça que não estava pronta — mas parando agora para analisar agora isso não é verdade, isso é coisa da Anapoli maldita!


Eu de fato não estava ESPERANDO por aquilo, e no RPG a gente sempre pode esperar pelo inesperado (ironicamente eu adoro essas surpresas). Mas eu estava PREPARADA pra improvisar com a Lani: já o fiz outras vezes — afinal, já havíamos jogado três sessões juntos! Além disso eu a criei, eu a conheço, eu conheço a ficha dela (ainda tô meio enrolada com as mecânicas do Pathfinder e com o Roll 20, mas faz parte de aprender o jogo), eu tenho um background sólido — eu pensei na história, na aparência, nos maneirismos, na personalidade…eu estava mais do que preparada! Sem falar que é um jogo, um experimento — transmitido, o que denota um certo nível de compromisso com o público, mas ainda assim um experimento. É também diversão, e eu estou me divertindo horrores com essa mesa! Então POR QUE CARALHAS EU ESTAVA SENDO TÃO RÍGIDA E CRETINA COMIGO?


É importante ressaltar que a minha crise de ansiedade não foi culpa de ninguém — não foi nenhum jogador que causou isso, tampouco foi o Noper (já falei com ele sobre o assunto). A culpa não foi nem minha: eu tenho um transtorno, não é como se eu quisesse me sentir assim. Eu não consigo decidir quando e como ele vai aparecer! Não foi o RPG que causou isso — o mesmo tipo de problema poderia ter acontecido depois de conversar com um cliente, depois de um show, depois de um espetáculo, durante um bate papo com um amigo, depois de uma aula...


Com isso tudo eu cheguei à conclusão que para mim, enquanto pessoa ansiosa, jogo seguro não tem a ver apenas com o contrato social, com relações interpessoais ou conhecer os próprios gatilhos. Tem a ver com aprender a ser generosa comigo mesma e olhar para mim com a mesma empatia que olho para os meus colegas das mesas. Preciso estar disposta a comprar meu próprio jogo como compro o deles (e como eles também compram o meu) — independente de, a rigor técnico e dentro dos padrões que eu estabeleci para mim mesma, a minha interpretação estar boa ou ruim. Aliás, eu nem costumo adjetivar a interpretação de RPG de outras pessoas dentro desses termos. Por que fazer isso comigo? Afinal, não estou me colocando no espaço de jogo como profissional e pesquisadora do Teatro. Estou me colocando, da mesma forma que os outros, como jogadora. Interessa o jogo.


Em se tratando de transtorno de ansiedade sei que não existem fórmulas prontas mas espero que o que estou falando aqui possa servir de alguma ajuda pra quem passa pelo mesmo — nem que seja para que as pessoas saibam que elas não estão sozinhas nesse barco. Vou seguir com algumas coisas que disse a mim mesma:


A narrativa também é sua. Suas escolhas não são menos válidas só porque não foram as melhores que poderiam ter sido, ou porque você pensou em ações que supostamente seriam mais interessantes/bonitas, ou mais coerentes, depois que a coisa passou. Guardemos como aprendizado. O importante é que você deu o melhor de si naquele momento e que você se divertiu.


Nem sempre você vai cumprir todas as expectativas em relação a sua interpretação — nem as suas, nem as de seus colegas. Aliás, você ao menos sabe o que os outros esperavam de você, se é que esperavam alguma coisa? É o seu personagem. É a sua história. Você o conhece — e se não há justificativa aparente para uma escolha que você fez, ela pode aparecer depois. Ou mesmo que não apareça, pessoas não são 100% coerentes e não foram e nem serão sempre do mesmo jeito. Mais ainda: nem tudo precisa ter justificativa — dentro de um jogo às vezes as coisas simplesmente são!


E se alguma coisa que você fez (ou acha que fez) te deixou muito inquieto (na manhã seguinte eu ainda tava inquieta, pra cês terem noção do tanto que a Anapoli resolveu encher o saco), experimente conversar com alguém. Uma perspectiva externa pode te ajudar a separar os fatos das coisas que a Anapoli inventou. Aliás, você pode até se surpreender com o quanto a percepção de outra pessoa sobre a mesma situação é diferente — e até mesmo positiva. Além disso, se de fato houve algum problema isso pode ajudar a resolver a situação, para que melhore ou que não se repita.


Não tenho nenhuma grande conclusão para esse artigo, nem grandes questionamentos. Só quero dizer que se alguém mais passa por esse tipo de situação, estou disposta a trocar ideia! Vamos nos ajudar a silenciar nossas Anapolis! ;)

Até a próxima!

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