Pirataria no mercado brasileiro de RPG – Existe solução?

Pirataria no mercado brasileiro de RPG – Existe solução?

Um dos maiores vilões do mercado de entretenimento, tanto jogos, como música, cinema e literatura, é a pirataria. Pirataria é o termo genérico que usamos pra englobar diversos tipos de práticas criminosas que têm a ver com a reprodução, distribuição ou venda não autorizada de diversos tipos de obras. Artistas e empresas que vivem da venda destes produtos deixam de ganhar fortunas por conteúdo sendo consumido livremente. Porém há quem defenda a pirataria, alegando que a reprodução é benéfica para o mercado e que as detentoras dos direitos sobre as obras deveriam publicá-las gratuitamente.

Essa é uma discussão antiga nos fóruns de RPG brasileiros. Muito se fala sobre a geração xerox, que trouxe o RPG para o país em tempos de mercado nacional fechado, e as iniciativas em formatos de zine e formas alternativas de financiamento dos desenvolvedores independentes. Mas o que realmente interessa para o mercado de RPG nessa discussão? Existe algo a ganhar a partir disso? Crime é crime e pronto, não?

O pensamento que vamos buscar agora é justamente esse: vale a pena discutir pirataria no RPG?

Características exclusivas do mercado de RPG

Pra entrar numa discussão sobre o mercado de RPG a gente precisa lembrar a diferença dele para outros mercados. Um fã de cinema assiste um único filme para sempre? Um fã de música escuta um único álbum para sempre? E um fã de RPG? Ele joga o mesmo jogo para sempre?

O consumo de RPG é diferente de qualquer outro tipo de produto. Ele mais se assemelha ao consumo de eletrodomésticos, que você faz uma ou outra compra e utiliza aquele produto por anos a fio. Quando você compra outro normalmente não é para substituir o primeiro, mas sim para desempenhar outra função, outra experiência. Nenhuma outra área do entretenimento funciona desta forma. Pode-se dizer que um livro dura para sempre, que a cada leitura alguém pode vir a ter uma experiência nova, mas não é nada comparado à versatilidade e durabilidade da experiência de um jogo de RPG. Um mesmo jogador de RPG pode se divertir a vida inteira com vários grupos de jogadores, e ter várias experiências diferentes, apenas com uma única aquisição de um jogo.

Para girar capital após a venda e inclusive dar mais longevidade à marca, a principal solução é a criação de conteúdo adicional para o jogo: suplementos, aventuras, romances, bugingangas como miniaturas e dados personalizados, etc. As vendas desse tipo de conteúdo não chegam nem perto do volume de vendas do módulo básico da maioria dos jogos. É uma venda que só acontece ao cliente que já comprou o primeiro título, e nem todo mundo que tem o básico quer ou acha que precisa de conteúdo adicional. Esse é um outro problema: o próprio jogador pode criar conteúdo adicional para seu jogo, e isso faz parte da experiência, do que é ser mestre de jogo. Quem não vai querer jogar no próprio mundo que criou, ou com as próprias regras? E se o seu grupo gosta… por que outros também não gostariam?

Logo no início da TSR, ainda nos anos 70, várias editoras e produtores independentes começaram a lançar conteúdo voltado a jogadores de Dungeons & Dragons. Eles tentaram coibir as vendas de livros de outras editoras como Arduin Grimoire Tunnels & Trolls, mas a Lei de Copyright americana, assim como a Lei de Direitos Autorais no Brasil, não protege as regras de um jogo. O texto em si, assim como a arte do livro, enquadram como de conteúdo artístico/intelectual e por isso protegidos, não as regras. A marca D&D também não pode ser citada por constituir quebra de Trademark. Pode copiar, só num faz igualzinho. Um bom exemplo disso é a quantidade de clones de jogos digitais populares como Paladins/Overwatch, LoL/DotA, etc. De votla ao RPG, não só começaram a pipocar livros com regras e conteúdo adicional como várias editoras surgiram com clones quase idênticos, que deram início a vários clássicos que conhecemos hoje. A própria natureza do jogo cria a competição para o mercado de RPG.

Podemos tirar algumas coisas disso: existe um fundamento que está ligado ao próprio game design do jogo que gera o raciocínio de “se eu posso criar um conteúdo ou se qualquer um pode fazer, o conteúdo não tem valor”. É o mesmo raciocínio retrógrado que dificulta o trabalho de várias profissões que lidam com conteúdo digital ou serviços artísticos, quando analisados por um leigo (fotografia, ilustração, blogueiro, youtuber, etc). Isso se dá com políticas de conscientização (que no caso do RPG costumam ser os posts em redes sociais sobre artistas prejudicados pela pirataria) ou na criação de produtos de qualidade acima da média (o que normalmente envolve um aumento no custo, ou inviabilização pro autor independente).

Dragões contra a pirataria

Dragões contra a pirataria

RPG gringo no Brasil

Em 2014 surgiu um comunicado no site da editora Hobby Japan, licenciada oficial japonesa da Wizards of the Coast, sobre o lançamento de Dungeons & Dragons 5ª Edição (link). Em resumo: a Wizards apenas comercializaria D&D 5ª Ed em inglês e não iria garantir licenças de tradução para nenhuma outra língua. Até hoje este é o único comunicado oficial a respeito, somado ao fato de que realmente nenhuma 5ª edição de D&D em qualquer outra língua foi publicada.

Esta é uma decisão estranha tendo em vista que Dungeons & Dragons é, certamente, o único RPG que possui um apelo mainstream internacional, e o único com valor de mercado que justifica traduções para diversas línguas sem risco. Outro produto da Wizards, o Magic: The Gathering, é localizado para todas as línguas dentro da própria empresa, com um cuidadoso trabalho de manutenção do sentido do texto e termos adaptados para a cultura local. Algo a se considerar na diferença entre os jogos é que Magic possui um caráter competitivo que depende muito da correta interpretação de texto, principalmente frente a torneios internacionais. O jogador americano precisa ser capaz de competir com o jogador brasileiro e ambos utilizando as cartas da mesma forma. Já D&D, como citamos antes, possui a figura do Mestre de Jogo que pode adaptar as regras para oferecer uma história à sua forma, mesmo que o jogador brasileiro e o americano joguem regras diferentes.

Como nós não temos nenhuma justificativa oficial da Wizards sobre o porquê da decisão, não há como ter certeza de suas motivações. No Brasil a empresa que publicava D&D até a 4ª Edição era a Devir Livraria, que hoje aposta na tradução de Pathfinder, o principal concorrente nos EUA. Muito se criticou sobre as traduções feitas pela Devir no passado, o que gerou a comum afirmação do RPGista mais tradicional: “eu prefiro ter o livro em inglês”. Na Alemanha, que é um país onde o inglês também é bastante aceito, a tradução da 3ª edição foi tão criticada que a 4ª sequer foi lançada em alemão. Em tempos de “livre mercado”, hoje qualquer cidadão pode importar um livro em inglês ao invés de comprar o produto nacional. O que não é mais o caso de D&D, que está sendo vendido em inglês mesmo nas maiores livrarias brasileiras.

É de uma covardia tremenda os discursos que afirmam que “o jogador que reclama de não ter conteúdo em sua língua é um preguiçoso”. A internet está abarrotada de relatos de gente que aprendeu outro idioma por causa do RPG. Além de ser um comentário insensível, que desconsidera a acessibilidade ao novo e/ou jovem jogador, é também um comentário insensato. O trabalho de tradução profissional é possivelmente o maior motor do mercado de entretenimento no Brasil, e não só do RPG. É triste encontrar este tipo de comentário junto a “quem pratica pirataria não valoriza o mercado nacional”, é paradoxal. Ainda vamos considerar o fator econômico mais à frente.

Porém a pirataria começa a viver um novo tempo: vários grupos de tradução não-oficial começam a surgir pelo mundo. Sem o livro oficial, a demanda requer o produto de qualquer outra forma. A versão italiana pirata de D&D 5 chegou a ser finalizada antes da publicação que foi acima mencionada, quando ainda não se sabia a posição da Wizards. No Brasil não é diferente. Esse tipo de trabalho feito por fãs foi feito por décadas, principalmente com relação a títulos que nunca teriam lançamentos oficiais no país. A distribuição desse conteúdo é uma infração à Lei de Marcas e Patentes, por distribuir material proprietário (e não uma infração à Lei de Direito Autoral, como normalmente se diz).

Considerando que a Wizards entende bastante o mercado internacional, as dificuldades envolvidas nos processos de localização, o potencial de pirataria que a comunidade oferece (quem viveu os tempos de scans da 3ª ed sabe muito bem)… certamente eles consideraram o potencial de lucro e custo necessário para desempenhar o trabalho e decidiram que não valia à pena. É muito difícil acreditar que essa não seja uma decisão puramente econômica, considerando o tamanho da marca, e uma aceitação de que o jogo vai ser pirateado e traduzido de qualquer forma.

  

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Encho Chagas
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Game designer independente, fundador da Nação dos Jogos e criador do PULSE, campeão mundial do Game Chef 2013. Acredita que é possível mudar o mundo através dos jogos.

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17 Comments

  1. Marcelo Ortolani
    março 14, 12:30 Reply
    Muito bom discutir esse assunto, a opinião do Encho é sempre muito bem vinda.
  2. Marcos Rodrigues
    março 14, 16:02 Reply
    Muito bom Encho, mesmo! Parabéns. Para quem é lerdo como eu, são 3 páginas viu gente. Eu quase não as vi hehehe
  3. mestre stuka
    março 14, 18:35 Reply
    Olá amigo escritor, sendo assim podemos usar por exemplo sistema d10 da whitewolf sem rolar processo?
  4. mestre stuka
    março 14, 18:37 Reply
    Olá amigo escritor, sendo assim podemos usar por exemplo sistema d10 da whitewolf sem rolar processo? em?
    • Shinken
      março 15, 11:07 Reply
      O nome do sistema é Storyteller, não? Você pode usar as regras, sim, mas tem que tomar cuidado com a identidade do produto. Se a sua ficha usar diagramação parecida, se você usar as mesmas fontes, se os atributos tiverem o mesmo nome, aí seria passível de processo. É como o Encho diz no texto - pode copiar, só não pode fazer igualzinho. Mas, claro, também tem o problema de quem vai querer consumir um produto obviamente copiado.
  5. William
    março 14, 19:33 Reply
    Bom artigo Encho, parabéns. Um duvida que me surgiu, e gostaria da sua opinião. Nas antigas, uma pessoa comprava o livro e o grupo todo lia e usava para seus jogos. Hoje no nosso ambiente moderno de jogos via skype ou similares, com gente do Brasil todo (ou exterior) jogando juntos. Eu comprar um pdf e disponibilizar para o meu grupo ler (entenda-se aqui, compartilhar o pdf) é pirataria ou não? Grato pela atenção
    • Shinken
      março 15, 11:08 Reply
      É pírataria sim, William. Distribuição, com ou sem lucro, é pirataria.
      • William
        março 15, 11:51 Reply
        Entendo Shinken. E na tua opinião como eu poderia de forma legal, apresentar as regras e possibilitar o jogo, nessa situação que eu apresentei? Grato pela atenção.
  6. Sonado
    março 15, 02:51 Reply
    De fato, debater se pirataria é ou não crime é uma perca de tempo sem tamanho, uma vez que dificilmente conseguiremos combater ela. Precisamos de mais debates sobre o como usar a tecnologia no futuro do mercado, ou ele esta fadado a ser engolido pela mudança inexorável.
    • Shinken
      março 15, 11:09 Reply
      E nem é uma questão passível de discussão, né, Sonado. Quem decide a lei não somos nós.
  7. Caio Lourencio
    março 15, 14:42 Reply
    Achei o texto bem interessante. O fato é que a pirataria e arquivos digitais ainda são coisas novas para o mercado e para o direito. A pirataria no rpg realmente tem diversos aspectos, sendo impossível falar de forma generalizada de seus efeitos, até porque eles variam em cada caso. Por fim, acho que é hora das empresas repensarem a forma que o conteúdo digital é feito e também disponibilizado, pois a ideia do empréstimo que existe no físico é complexa quando falamos de material digital. Quando compramos o produto digital pagamos pela cópia digital ou pelo direito de usar? Posso imprimir o arquivo que comprei? Essas perguntas não são tão simples e nem tão preto no branco quanto alguns acham que é. Ao se tratar das cópias digitais é indispensável que as empresas repensem as licenças e a forma que negociam esses produtos.
  8. Tadeu Rodrigues
    março 15, 15:55 Reply
    Encho, legal você se debruçar sobre o tema. Mas a grande resposta para isso não está nas três páginas da postagem, e sim no fato das imagens que ilustram a mesma não terem sido creditadas.
  9. Raul Tribuzi
    março 15, 18:02 Reply
    Muito bom Encho! Sem duvidas é uma questão importante sobre o mercado atual. Também acredito que devemos criar novas formas de consumo. E fazer proveito das novas tecnologias para conseguir tirar lucro desse ambiente todo.
  10. Tassiano Bica
    março 23, 10:41 Reply
    Eu gosto do material, sim. Mas o mercado precisa se inovar... ainda mais se considerarmos essa nova geração conectada. Na minha opinião a tradução é um grande incentivo, quando se fala em rpg se fala em D&D, é ali que se começa a conhecer a pesquisar, os nacionais vêm depois, são os complementos para quando você está 'cansado' de matar dragões (desculpe a minha possível ignorância sobre o mercado brasileiro, que já é bem amplo para generalizar). Outro grande incentivo é o mercado infantil. Imagina, a criança já sabe ler, adora histórias, mas só as ouvi, não vive ela. Quando ela cria habilidade motora (hoje cada vez mais cedo) ela vai jogar um jogo de pc, com um apelo visual gigante. Estamos criando não só menos leitores, mas menos rpgistas. Existe algum sistema voltado para esse público? Agora, imagine uma 'criança' na puberdade, ela não conhece o produto e quando se depara com ele, está em um idioma que não entende. Se eu me deparasse com os livros de D&D aos meus 13 anos, eu jamais teria começado a jogar. Felizmente a versão 3.5 era traduzida. Eu, que sou do interior, me lembro de quando era novo e encontrava em um canto de uma livraria da capital uma pequena prateleira, com 15 ou 20 livros de rpg ali. Meu deus, aquilo era mágico, eu podia sentir todas as aventuras acontecendo. Eu me vejo daqui uns anos, como aquele tio meio metido a vintage que se gaba do vinil que comprou. Espero daqui uns anos ser um desses, só que com um livro na mão.

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