Malandros

Malandros

Um RPG de mesa sobre trambiqueiros e lutadores de rua, sobre amor, ódio e comunidade – nos últimos dias do Rio imperial.

Como quase todo carioca, eu tenho uma relação de amor e ódio com o Rio imperial. Por um lado, gerou vários elementos icônicos da cidade e cimentou a importância no Rio para o país culturalmente. Por outro lado, foi um período extremamente desigual que serviu como fundação para praticamente todas as tensões sociais da cidade. Foi com um misto de empolgação e medo que eu apoiei o Kickstarter de Malandros: Tales from the Streets of Old Rio, um RPG usando o DramaSystem escrito por Tom McGrenery.

Assim que abri o livro e encontrei uma citação de Bezerra da Silva, relaxei um pouco. Quando vi as ilustrações, fiquei genuinamente empolgado. Quando li a mecânica de axé, Malandros já tinha me conquistado completamente devido à combinação de boas regras, boa prosa, excelente pesquisa, respeito pelo período histórico e pelo charme que só o Rio imperial tem. Conseguimos bater um papo muito bacana com o autor Thomas McGrenery. Chega junto! Não esqueça do chapéu, da navalha e do terno branco.

1)  Antes de nos aprofundarmos – quem é Tom McGrenery?

Ah, você sabe. Só um cara qualquer.

2)  A abordagem da cultura brasileira que você faz em Malandros é muito fiel e bem pesquisada, mais que algumas obras brasileiras de ficção. O que levou você a ter um interesse tão grande pela cultura brasileira?

Em agosto de 2008, um cara que eu conhecia me convidou para a inauguração do novo centro de artes marciais dele. Eu não queria ir de verdade, mas não conseguia pensar em uma forma educada de recusar, então eu fui. Eles ofereciam duas aulas introdutórias gratuitas: uma de Wing Chun, uma de capoeira. Eu voltei na semana seguinte para mais capoeira – e você provavelmente pode adivinhar o resto.

3)  Por que o DramaSystem é a melhor escolha para Malandros?

O DramaSystem permite uma história despretensiosa, sem rumo pré-definido, com linhas estruturais descentralizadas. Ao dividir a abertura de cenas igualmente entre todos os jogadores, você obtém uma experiência que gera surpresas para todos, incluindo o narrador, criando histórias entrelaçadas e muitas vezes bastante complexas que acabam fazendo com que personagens individuais sigam seus desejos emocionais e jogadores escolham fazer as coisas que mais os interessam.

Este tipo de história é possível com outros sistemas, é claro, mas requer muito controle e decisões ativas por parte do grupo. Com o DramaSystem, a estrutura do jogo gerencia tudo isso para você.


Malandros 14)  O kickstarter de Malandros foi extremamente bem-sucedido – corrija-me se eu estiver errado, mas parece que vocês alcançaram todas as metas expandidas exceto a última. Essas metas expandidas incluem vários cenários alternativos, mas a que me deixou realmente interessado foi a do mini-suplemento sobre o sobrenatural brasileiro. Existe alguma história ou criatura mitológica brasileira que você ache particularmente interessante para uma campanha de Malandros?

O boto transmorfo se encaixa tão bem que é quase óbvio demais – e mesmo se você não estiver em um jogo que usa criaturas sobrenaturais explicitamente, a mera existência do suplemento ajuda os jogadores a habitar o cenário histórico através de uma espécie de osmose. Digamos, uma menina na sua vizinhança volta grávida depois de visitar a família no interior. Ela diz que o pai é uma estranha criatura ribeirinha que se transformou em homem. Talvez (provavelmente, até) você não acredite nela, mas se você como jogador sabe que existe um livreto feito para o jogo que fala sobre essa criatura, fica difícil ter certeza absoluta disso.

Uma das dificuldades de usar as criaturas do folclore brasileiro em Malandros é que o jogo é urbano mas muitas – se não todas – essas lendas são muito rurais. O suplemento vai ter sugestões sobre como e porque essas criaturas podem entrar na vida dos habitantes de uma grande cidade.

Mas eu também acho que essa é uma das formas interessantes de usá-los – enfatiza um dos temas do jogo: pessoas e coisas do interior se mudando para a cidade. E o ambiente urbano pode adicionar uma mudança interessante à forma de uma lenda aparecer. Imagine um parque da cidade sombrio na calada da noite, com o corpo-seco vivendo em algum lugar entre as suas árvores.

5)  Já houve alguma negociação para trazer Malandros para o Brasil, em português?

Ainda não.

6)  Malandros usa um sistema de rodízio de narradores como padrão. Por que você tomou essa decisão?

Essa foi uma coisa que funcionou muito bem durante o playtest, então eu quis enfatizar essa opção especificamente. Eu comecei escrevendo coisas como “se você tiver um narrador permanente, faça isso… se você tiver um rodízio de narradores, faça aquilo…” mas acabou sendo mais simples escrever assumindo o rodízio de narradores. Afinal de contas, nós normalmente variamos quem é o narrador de qualquer forma – a diferença é trocar a cada par de sessões em vez de trocar no começo da campanha.

Também é uma espécie de truque para montar a vizinhança em que os PJs vivem. Se todo mundo faz um PJ e cria relações interconectadas entre eles, mas uma pessoa é sempre o narrador depois disso, então o que você tem de verdade é um monte de PJs e um PNJ muito detalhado que todos os PJs conhecem e que tem ganchos de história legais com pelo menos alguns deles.

malandros 37)  O DramaSystem usa cartas de baralho em vez de dados como randomizador na sua SRD, mas você escolheu usar dados em Malandros. Por que?

Robin Laws criou o sistema processual de Hillfolk explicitamente para que um personagem agindo sozinho tivesse dificuldade em ter sucesso – você precisa que os outros PJs ajudem no seu plano para que ele tenha uma boa chance de sucesso.

Malandros não funciona assim, e o motivo para essa diferença é o resultado que cada jogo é feito para produzir. Hillfolk emula dramas de TV, como Deadwood, Peaky Blinders ou Battlestar Galactica.

Malandros se inspira nas lendas de capoeiristas históricos, telenovelas modernas e romances como O Cortiço e Capitães da Areia. Essas histórias normalmente envolvem personagens que estão conectados, mas que vão em direções diferentes para seguirem seus objetivos individuais. Então o sistema processual de Malandros permite que você vá sozinho fazer as suas coisas, provavelmente obtenha sucesso se for bom nelas e se meta em encrenca por conta própria também.

Para o sistema processual de fato usado em Malandros, você poderia usar cartas também – mas o importante é a distribuição de probabilidade se manter constante. Dessa forma, um d6 dá uma margem de números mais gerenciável para pensar durante o jogo.

A mecânica de gastar habilidades e as probabilidades em questão nas rolagens processuais refletem uma coisa da filosofia do jogo. Eu não gosto de falar muito sobre isso publicamente, porque eu não quero diminuir a experiência de jogo, mas esse é um caso em que devemos considerar o provérbio “o valente não existe”.

Em Malandros, um único personagem com as habilidades certas pode garantir pelo menos um sucesso parcial uma, duas ou talvez até três vezes antes de ter que recarregar suas habilidades. Mas se você estiver despreparado, talvez quando outro jogador incluir você em uma cena processual antes de você ter chance de recuperar seu valor de Capoeira, você vai rolar só um d6 como todo mundo e tem tanta chance de tirar 1 quanto de tirar 6.

Como isso se relaciona com os temas de malandragem, sorte e miséria, e com o provérbio em si, eu deixo como um exercício de pensamento para o leitor.

8)  Como não poderia ser diferente, Malandros enfatiza constantemente a malandragem. Porém, o lugar da malandragem como conceito cultural tem sido fortemente questionado no Brasil, principalmente por causa de corrupção política. Você acha que malandragem é uma relíquia do passado ou que ela pode se reinventar em uma nova forma para o futuro?

Se nós quiséssemos defender malandragem como uma coisa boa, poderíamos dizer isso: malandragem é uma reação natural e compreensível quando você não tem saída.

Quando a sociedade é organizada de forma que você nunca pode ter um bom resultado seguindo as regras, por que você não jogar o seu próprio jogo em vez disso?

É justo dizer que para as pessoas comuns do Brasil no século XIX, trabalhar duro e seguir ordens não adiantavam grande coisa.

A mesma coisa muitas vezes vale para hoje em dia. Mas em algum momento, o malandro precisa se questionar. Você está realmente sendo forçado a tomar essas ações ou você está apenas tentando se justificar para si mesmo e para os outros?

Malandragem tem limitações inatas. Ela se desvia das regras da sociedade, mas pode fazer muito pouco para transformar a sociedade de forma que malandragem não seja mais necessária. Além disso, é uma abordagem de vida a curto prazo. A tragédia do malandro é que, no final das contas, ele não tem futuro. Ele sempre está um passo adiante de quem está atrás dele, mas pra onde ele vai? O que ele vai deixar para trás quando se for?

Em termos do futuro da malandragem, eu acho que ela sempre existirá, enquanto existirem falhas estatais e enquanto indivíduos conseguirem ver uma forma mais fácil de ter uma boa vida além das opções que a sociedade lhes dá.

Se você quiser ver isso de um ângulo otimista, eu acho que você pode usar o conceito de malandragem na sua própria vida, sem prejudicar os outros, para que você não valorize a si mesmo ou os outros somente a partir das expectativas das pessoas ao seu redor. A visão romântica do malandro é uma ilusão, mas ela contém uma lição importante: não importa quem seja, todo mundo pode ficar de boa – pelo menos por um tempo.

9)  Quais são os seus RPGs favoritos?

Essa é uma pergunta difícil. Warhammer Fantasy Roleplay continua um favorito, junto com Feng Shui, DramaSystem (é claro)… e eu tenho um carinho estranho por Starchildren, um jogo obscuro sobre alienígenas que vêm para terra por causa do rock’n’roll.

10)  Você está jogando alguma campanha atualmente?

Sim, eu estou com um jogo online de Dungeon Crawl Classics e em um play-by-post de Apocalypse World que usa um shopping abandonado como cenário. Nos fins de semana, aqui em Hong Kong, nós temos um grupo presencial; jogamos vários tipos de one-shot e campanhas curtas. Normalmente é um jogo diferente a cada semana.

11)  Qual foi o seu primeiro RPG e quando foi a primeira vez que você o jogou?

Advanced Fighting Fantasy, quando eu tinha 9 ou 10 anos – mas eu não entendia bem a diferença entre ele e a forma como meus amigos e eu jogávamos os “escolha sua aventura” da  Fighting Fantasy, com uma pessoa lendo e o resto decidindo o que fazer em seguida.

Então o primeiro RPG que eu realmente joguei sabendo o que estava fazendo foi a primeira edição de Warhammer Fantasy Roleplay, que eu joguei pela primeira vez em 1992.

12)  Quais são seus planos para o futuro, agora que o financiamento coletivo de Malandros acabou?

Eu estou trabalhos com dois artistas, Linus Larsson e Joseph Vandel, que estão produzindo pinturas coloridas e um mapa da cidade customizado, respectivamente. Também estou finalizando os detalhes de um licenciamento de fotos para o livro com a Fundação Pierre Verger, em Salvador.

Uma vez que o livro principal esteja pronto, eu tenho alguns PDFs bônus para escrever, incluindo o suplemento de criaturas sobrenaturais, para o qual meu amigo Claytonian, um artista talentoso, está esboçando umas ilustrações. E também temos os cenários extras escritos por outras pessoas, que eu pretendo lançar assim que eu puder após o livro básico. Eu sei que Mark Galeotti quase terminou seu suplemento sobre a Rússia, então acho que ele vai ser o primeiro a ser lançado.

Os apoiadores do Kickstarter já receberam o PDF “básico” e eu revisarei o livro de acordo com suas sugestões, além de adicionar ilustrações e fotos. Se alguns de vocês, leitores, estiverem interessados em se tornar apoiadores agora que o Kickstarter já terminou, existe a opção do Payhip: https://payhip.com/b/bPDh

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Thiago Rosa Shinken é escritor e tradutor freelancer de RPG, já tendo trabalhado várias editoras no Brasil e nos EUA. Ele joga RPG desde os 9 anos, é fã de punk rock, nunca dispensa uma cerveja de trigo e torce pelo Fluminense.

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