Eventos multimídia: a importância de narrar para quem não é RPGista (ainda) | RPG Notícias
Eventos multimídia: a importância de narrar para quem não é RPGista (ainda)

Eventos multimídia: a importância de narrar para quem não é RPGista (ainda)

Um relâmpago ilumina o urso humanoide enquanto ele urra e avança na sua direção, banhado em chuva ácida. O que você faz?

Eu saco a minha faca e arranco o olho dele!

Durante o Geek & Game Rio Festival 2017 trabalhei no estande da editora Pensamento Coletivo narrando Mutant: Ano Zero. Foi uma experiência maravilhosa, que me colocou em contato com uma quantidade enorme de jogadores novatos. Alguns deles eram crianças que achavam que RPG era The Witcher. Sentados à mesa, eles começaram a se empolgar e arrancar olhos de ursos com facas de sucata. Surgiam, então, RPGistas.

O fator estrutural

Frequentemente falamos aqui no blog sobre como é importante que eventos sejam acessíveis para novos jogadores e que permitam que RPGistas possam conhecer novos jogos. Em um desses quesitos o G&GRF 2017 não funcionou muito bem – o valor de entrada era 100 reais, extremamente proibitivo, dificultando imensamente o acesso. Com certeza algumas pessoas que iriam ao evento desistiram diante dessa alta barreira de custo.

Como qualquer um que acompanhe a cena de eventos geeks no Rio sabe, muitos eventos sofrem por falta de infraestrutura. Realizados em pátios de escolas ou universidades, clubes esportivos ou até praças, esses eventos frequentemente não têm camarins adequados para cosplayers, têm ar-condicionado fraco (ou nem têm ar!), têm péssima acústica tornando difícil conversar, não têm boa organização de espaço, são de difícil acesso e às vezes nem têm banheiros. São eventos menores e mais baratos, com uma cacofonia e uma energia que encanta, mas uma bagunça que torna muito difícil integrar o RPG. Dessa forma, tirando alguns desbravadores corajosos como a galera do Lampião, é raro vermos RPG nesses eventos menores. O que aconteceu no G&GRF foi bem diferente.

O evento aconteceu no Riocentro, o maior centro de convenções da América Latina. O espaço foi muito bem organizado, com as mesas de jogo de frente para os estandes das editoras e a área de jogos analógicos ao lado da entrada. Assim, era fácil que os interessados chegassem ao espaço e se direcionassem às mesas certas. Gostando do que viram, era fácil que comprassem o que queriam. Outro fator providencial foi um estande das Lojas Americanas no evento, que vendia com os preços normais da rede. Poder comprar uma lata de refrigerante por menos de 4 reais em um grande evento é uma raridade e foi uma surpresa muito bem-vinda.

Professor Valpaços em sua milionésima mesa no evento

Um público novo

Mais de uma vez, pais se aproximavam das mesas de jogo trazendo seus filhos para conhecer o jogo.  Nessas vezes, comentários como “não sabia que dava para jogar assim” eram comuns. Aqueles meninos e meninas não conheciam a experiência do RPG, mas agora passaram a conhecer.

O estande que mais atraía as crianças era o da Retropunk. Não era para menos – com as demonstrações de Hora da Aventura, a criançada se empolgava muito. Quando alguém que nunca jogou RPG pergunta se pode ser tão maneira que sua maneirice vai invocar o Rei da Festa, é difícil não ficar com um sorriso bobo no rosto. Queria ter visto uma das mesas de perto, mas quase não tive como levantar da mesa onde eu estava narrando.

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Diferente de eventos voltados para RPG, em que frequentemente você espera com a mesa vazia por horas, nesse evento multimídia uma mesa fechava atrás da outra. Nos três dias, narrei onze mesas. O mestre dos mestres, Jorge Valpaços do Lampião, narrou ainda mais. O pessoal da Pensamento Coletivo tinha que avisar pra gente que estava na hora de encerrar. Tinha fila de espera para as próximas mesas. Eu ia almoçar correndo, quando voltava já tinha gente esperando na mesa.

Enquanto tinha muita criança nas mesas de Hora da Aventura, na minha mesa de Mutant tinha muitos adolescentes. Era fácil saber de onde vinha o interesse. Quando os jogadores chegavam à mesa, eu perguntava “já jogou Fallout?” e quase todos respondiam que sim. Daí para entender o Mundo Nascente não é nem um pulo, é um passo. A imersão vinha fácil. Os relacionamentos entre os personagens, incentivados pelo próprio sistema, criavam dinâmicas imediatamente. Se as crianças nunca tinham jogado RPG antes, os adolescentes só conheciam RPG eletrônico. Quase todo mundo saía da mesa e ia comprar livro. Estávamos formando novos RPGistas.

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A responsabilidade das editoras

Isso tudo só foi possível porque as editoras tiveram interesse e visão. A Jambô levou um estande para o evento, mesmo estando com quase toda a equipe em um tour de eventos no nordeste. Retropunk e Pensamento Coletivo não só levaram seus estandes como tinham várias mesas com todos os seus jogos rolando. Teve Hora da Aventura, teve Mutant, teve Terra Devastada, teve Déloyal, teve Savage Worlds, teve Jadepunk, teve Espadas Afiadas & Feitiços Sinistros, teve Deadlands. Teve tudo. Teve muita parceria também, todo mundo se ajudando. A galera da Retropunk principalmente quebrou galho pra todo mundo. Não tem essa vibe de concorrência, tá todo mundo junto. A partir do momento que o cara compra um Déloyal, ele vira um jogador em potencial de Tormenta RPG ou Lenda dos Cinco Anéis também.

Fazer isso tudo não é barato. Eventos multimídia costumam ser uma espécie de aposta em termos de venda – nem sempre o público ressona com jogos analógicos. Dessa forma, o povo das editoras não esperava lucro direto da participação no evento (embora as vendas tenham acabado sendo boas no final das contas), mas sim marcar presença, fazer vitrine. Estar nos eventos multimídia, formar novos jogadores, expandir as barreiras do hobby – essa é uma responsabilidade que alguém precisa assumir para que o RPG floresça. Dessa vez a galera das editoras representou e representou bonito. É uma impressão completamente diferente daquela que tive na primeira Expo Geek, tanto sobre o público quanto sobre as editoras. O país pode estar em crise, mas nosso nicho continua crescendo.

Prateleiras esvaziando no final do evento

Próximos eventos multimídia

Apesar da experiência extremamente positiva, acho que é cedo para aumentar a expectativa para os próximos eventos multimídia. Grande parte do sucesso desse evento foi devido à infraestrutura e ao marketing feito pela própria organização do evento. Não é justo esperar um resultado similar de outros eventos, frequentemente menores, com ambições mais modestas.

Isso quer dizer que, por enquanto, pra ter RPG em eventos pequenos vai continuar sendo o esquema de mesinha no canto, gritar pro jogador de ouvir, tomando pastilha pra garganta entre uma mesa e outra. Raramente o público nesses eventos compensa o bastante para uma editora levar estande, então são iniciativas menores.

O que podemos fazer, como um todo, é prestigiar os eventos em que as coisas dão certo. É a mesma coisa que eu falei faz quase dois anos, em 2015, depois daquela ExpoGeek com palestras para jogadores de RPG. Quase não havia atrações sobre RPG no evento (uma palestra sobre criação de mundos, uma sobre a história de D&D) mas acho que já está de bom tamanho. Talvez a mais essencial fosse uma palestra sobre o que é RPG, indicando o espaço de jogos analógicos no final.

Compareçam aos eventos multimídia. Mostrem os estandes das editoras para seus amigos que nunca jogaram ou que pararam de jogar. É o espaço que a gente tem para mostrar que no videogame você não pode decidir que vai ser tão maneiro que vai invocar o Rei da Festa.

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Shinken
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Thiago Rosa Shinken é escritor e tradutor freelancer de RPG, já tendo trabalhado várias editoras no Brasil e nos EUA. Ele joga RPG desde os 9 anos, é fã de punk rock, nunca dispensa uma cerveja de trigo e torce pelo Fluminense.

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3 Comments

  1. Pedro O.
    maio 03, 16:32 Reply
    maneiraço! parabéns a todos os envolvidos, tem que suar pra fazer gente nova conhecer o hobby, mas vale a pena

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