Épico RPG

Épico RPG

O cenário de RPG nacional está muito bom, com ferramentas como o financiamento coletivo e a impressão sob demanda permitindo que qualquer autor publique seu material. Nós já mostramos o incomum Overpower por aqui e agora queremos apresentar outro desses autores. Rafael Vivian traz seu Épico RPG de forma completamente independente. O próprio portal do jogo já demonstra bastante esmero e é bem bonito, de navegação simples e fácil.

A premissa do Épico é ser um RPG genérico fácil de aprender e realista. Como o próprio autor diz, é um objetivo bem ambicioso, especialmente em um livro de apenas 62 páginas (84 na versão impressa). Será que o sistema está a altura desses objetivos tão ambiciosos? Vamos descobrir juntos! Chega mais.

A Mecânica Central

Os personagens têm três atributos, Vigor, Agilidade e Inteligência. Para resolução de conflitos, você rola 2d6 e soma o atributo adequado. O resultado é comparado com uma dificuldade determinada pelo mestre, o que determina sucesso ou falha.

Combate funciona de forma parecida – uma rolagem para ataque, uma rolagem para defesa e caso o ataque ganhe o dano é igual à diferença entre as rolagens somada ao bônus da arma. Ou pelo menos é o que a seção de resumo indica; mais tarde, na descrição da Agilidade, é introduzido um conceito de Alvo, uma defesa passiva como a velha conhecida Classe de Armadura.

Épico também usa o sistema de vantagem/desvantagem do D&D 5e. Com vantagem, você rola 3d6 e soma seus resultados. Com desvantagem, rola apenas 1. Se você tem vantagem e desvantagem ao mesmo tempo, eles se anulam.

Se você rola 1 em todos os dados, é uma falha crítica. Se rola 6 em todos os dados, é um sucesso crítico.

Aspectos Técnicos

O livro digital conta com diagramação simples mas eficiente, ilustrações bonitas via Creative Commons. Todos os créditos das ilustrações são listados e você tem acesso rápido ao trabalho dos artistas.

A organização das bookmarks é excelente, facilitando muito a consulta. Esse é um aspecto frequentemente ignorado pelas editoras (o Manual 3D&T, por exemplo, não tem bookmarks) mas muito importante na prática. Essa é a principal vantagem de Épico RPG sobre outros sistemas genéricos, a facilidade de uso.

Em termos de edição, existem algumas contradições (como a que já mencionamos sobre o funcionamento de ataque/defesa), mas nada muito grave. Totalmente compreensível quando lembramos que é tudo o trabalho de uma só pessoa.

Realista ou Equilibrado?

Épico se propõe a ser realista na introdução, mas ao mesmo tempo simplifica o tipo de regras que permitem que jogos como GURPS sejam realistas.

Por exemplo, você nem precisa ser mais forte que a média para que uma maça seja mais letal que uma pistola. A pistola causa apenas 2 pontos de dano, apesar de reduzir pela metade o valor da armadura do alvo. A maça causa o mesmo dano, também divide a armadura pela metade e ainda soma qualquer bônus de dnao por vigor. O machado enorme causa 5 pontos de dano e ainda soma um bônus pelo Vigor (com aumento de 50% se for usado com as duas mãos), enquanto um fuzil de assalto causa os mesmos 5 pontos de dano. É difícil chamar de realista um sistema no qual o cassetete de um guarda é mais eficiente que sua pistola.

Claro, o modo como Épico define “realista” não é exatamente o padrão simulacionista com o qual estamos acostumados. Logo na introdução, o que o autor tem a dizer sobre realismo é: “Vencer desafios é muito mais prazeroso no nível de dificuldade certo”. Isso soa muito mais como uma definição de equilíbrio que de realismo, o que se reflete bem principalmente na tabela de armas que mencionamos – as armas são razoavelmente equilibradas entre si e determinados tipos de personagem terão motivos para usar umas armas mais que outras.

Então, afinal, Épico é realista? Não, não é. Mas ele é coerente e equilibrado.

Pontos de Referência

O maior defeito de Épico (que pode ser consertado em versões futuras, já que o jogo ainda se encontra em beta) é a falta de diretrizes claras para o mestre. O jogo determina que o mestre deve ditar a dificuldade das ações, mas a única ferramenta para nortear essa decisão é uma tabela seguida de adjetivos. Saltar de um carro em movimento para outro é desafiador, difícil ou heroico?

Fica ainda mais difícil ajustar essas situações por causa do modo como o sistema de vantagem/desvantagem funciona. Ou você fica muito mais apto a realizar uma ação ou muito apto a falhar.

Conclusão

Épico cai em uma categoria que o TVTropes chama de So Okay It’s Average. O sistema não é ruim, mas não apresenta nada de novo nem de marcante. Não existe nada que salte aos olhos. Ele é montado de forma competente e pode ser uma opção tão boa quanto qualquer outro RPG genérico para um novato, mas não é um motivo para aposentar seu GURPS, 3D&T, Fate ou Savage Worlds. Tudo o que você pode jogar com Épico, pode jogar com esses outros sistemas genéricos já presentes no mercado.

Se você ainda não tem um sistema genérico do coração, porém, dê uma chance ao Épico. É um jogo competente, com versão digital gratuita e com uma versão impressa muito em conta.

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About author

Shinken
Shinken 286 posts

<p>Thiago Rosa Shinken é escritor e tradutor freelancer de RPG, já tendo trabalhado várias editoras no Brasil e nos EUA. Ele joga RPG desde os 9 anos, é fã de punk rock, nunca dispensa uma cerveja de trigo e torce pelo Fluminense.</p>

Review do editor

Regras
3/5
Apresentação
3/5
Emulação de Gênero
1/5
Disponibilidade
5/5

3

Average
3

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Uma coisa que eu realmente sou viciado são sistemas e cenários de RPG novos. Claro, muitas vezes vejo mais do mesmo, vejo sistemas que ainda querem ser espelhados nos antigos

5 Comments

  1. GunnuX
    agosto 17, 17:31 Reply
    Gostei da sua análise sobre esse sistema, confesso que também não fiquei muito empolgado com ele, existe muitos rpg's de fã distribuído pela internet baseado em 2d6 (Sistema +2d6 do Tio Nitro,Alchemia, NanoRPG, Might Blade, e muitos outros ... todos nacionais) Dentre os rpg nacionais os que gostei foram: NanoRPG (Genérico pra super, mas roda qualquer cenário), GeneSys (Eu considero uma versão melhorada do Fudge, ele é 90% baseado em Fudge e 10% no Fate, do Fate ele apenas pegou emprestado os aspectos que são chamados agora de predicados e geram um bônus variados quando invocados), e a Era do Caos (É uma versão caseira do Mundo das Trevas que utiliza apenas d6, em vez do d10)
    • Shinken
      agosto 17, 17:34 Reply
      Acho Era do Caos bem mais que um Mundo das Trevas nacional. Ela pega ainda melhor o zeitgeist dos anos 90 que o Mundo das Trevas e é um dos poucos jogos que abraça de verdade ser brasileiro. Recentemente comprei um pacote com todos os livros, logo logo vai rolar um review desse que eu acho que é o jogo nacional mais underrated de todos.
  2. Jean
    agosto 18, 14:28 Reply
    Interessante mas realmente não chama muito a aténção não.
  3. RafaelLVX
    agosto 20, 11:58 Reply
    Muito bom o texto. Esclarecendo, não há contradição sobre a Dificuldade-Alvo, na verdade ela serve para determinar se o atacante atinge o adversário (se não, o defensor nem rola defesa). Sendo um beta, ainda há muito tempo para melhorar e ampliar o sistema. 😊
  4. Huebr
    agosto 31, 18:52 Reply
    Sobre o realismo das armas, imagine um homem te dando uma machadada no peito ou no pescoço. Se você acha que sai mais ileso do que se levasse um tiro de fusil nos mesmos lugares, meu amigo você vive em outro mundo.

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