Diários de Campanha – dividindo as suas aventuras com o mundo

Diários de Campanha – dividindo as suas aventuras com o mundo

Alguns anos atrás, enquanto eu estava na minha primeira faculdade, eu passei por um período de seca de RPG. Na verdade, até me sinto um pouco mal de chamar de seca, já que eu tinha três grupos fixos – dois presenciais e um online. Só que esse foi o período que eu menos joguei RPG desde aquela primeira vez que trouxe o Paranoia (que na época tinha acento!) da Devir pra casa sem saber que era um jogo. Sentindo esse vazio no peito pela falta do som de dados rolando, eu comecei a procurar relatos das mesas de RPG das outras pessoas. Ainda não existia streaming de RPG.

Eu encontrei vários diários de campanha, a maior parte deles em inglês, nessa época. Alguns eram bem elaborados, às vezes como blogs inteiros, reunindo informações de cenário e com a recapitulação para que os jogadores não esquecessem o que estava rolando. Outros eram mais simples, mais diretos, resumos rápidos em poucos parágrafos, geralmente em fóruns (era o auge dos grandes fóruns de RPG) ou grupos de discussão em redes sociais. Outros, ainda, eram versões romanceadas da própria mesa, praticamente fanfiction de RPG. Desses últimos, alguns se tornaram romances por si só, como Acima dos Deuses.

Influenciado por essa galera, fiz uma coisa parecida com a campanha que eu narrava na época. Porém, o resultado sempre me incomodava. Era difícil determinar como escrever o texto, já que eu não tinha muita certeza da utilidade dele. Servia para que outras pessoas lessem? Servia como lembrete para mim e para meus jogadores? Servia como treinamento para escrever um romance um dia? Meu diário de campanha acabou tendo uma certa utilidade, já que era uma campanha com duas mesas paralelas, então era através dessas recapitulações que alguns jogadores sabiam o que estava rolando na outra mesa. Não eram todos os jogadores que liam, mas os que liam gostavam da informação que tinha ali. Só que, pra mim, escrever aquilo era um saco.

De todos esses diários de campanha que eu li na época, só um realmente me fisgou. A campanha de Halloween de SilverClawShift é apresentada de forma rápida e dinâmica, sem se preocupar em recontar os acontecimentos da mesa passo a passo, mas sim se concentrando em passar o clima da campanha e fazendo ocasionais highlights para momentos mais interessantes ou mais importantes. É claro, ajuda que o material que ela tinha para usar como base era muito bom – o jogo em si parece que foi sensacional, do tipo que faz você ter vontade de ter participado da mesa; não só por conta do contexto estabelecido pelo narrador mas pela forma como os jogadores abraçam a história e permitem que ela molde seus personagens.

Replay

Depois de terminar de devorar os diários de SilverClawShift, eu percebi que não curtia muito esse lance todo de diários de campanha. Pouco tempo depois eu fiquei muito interessado em RPGs japoneses e qual não foi minha surpresa ao descobrir que os diários de campanha eram publicados como livros no mercado japonês. Mais que isso – eles vendiam pra caramba! E faziam isso faz muito, muito tempo.

Os japoneses chamam os nossos diários de campanha de replays. E eles têm um formato bem característico, parecido com um script. Alguns jogos japoneses traduzidos como o inglês incluem replays, como o Maid RPG. A diferença de formato para fazer a mesma coisa é gritante: enquanto diários de campanha aqui no ocidente geralmente tomam ares de coisas grandiosas, os replays são simples e diretos. Eles se parecem muito com aquelas sessões de exemplo de jogo que alguns RPGs têm. Eles não têm aspiração de ser obras literárias, eles querem transmitir informação.

Isso não quer nem dizer que um replay não possa ser uma grande obra literária. Quando você pensa em fantasia medieval e em Japão, você provavelmente pensa em Record of Lodoss War. Essa história mistura fortes traços tolkienescos com elementos do imaginário estético japonês da época, resultando inclusive em uma espécie de subgênero de fantasia medieval japonesa lodossiana (a gente fala um bocadinho sobre esse subgênero aqui). A gênese de Lodoss foi justamente um replay. A partir daí surgiram todas as obras adjacentes, como mangá, romances e animes.

Para que serve?

Considerando como os replays têm uma recepção boa por saber a que vieram, o primeiro passo para escrever um bom diário de campanha parece ser entender exatamente qual é o seu objetivo. Isso pode parecer uma dica extremamente óbvia (se aplica, inclusive, a qualquer texto), mas costuma passar despercebido.

Voltando ao meu antigo diário de campanha, eu não escrevia ele de forma dinâmica coletando as informações do jogo. Eu tentava tornar a leitura interessante por si só, com floreios aqui e ali. Só que não era isso que meus jogadores queriam. Se eles quisessem ler um romance de fantasia, estariam bem melhor servidos com Scott Lynch ou Leonel Caldela que comigo. E se eu quisesse escrever uma boa história também estaria melhor servido se usasse o jogo como inspiração em vez de repetir exatamente o que aconteceu – coisas diferentes funcionam bem em mídias diferentes, por isso que adaptações frequentemente alteram o material de origem.

Dessa forma, se o seu objetivo é repassar os acontecimentos da sessão ou mostrar como o jogo funciona, o esquema do replay provavelmente é mais adequado. Se você quer escrever uma obra literária, é melhor só se inspirar na sua campanha e escrever um livro mesmo. Se você quer encontrar um meio termo e a sua audiência concorda, também vai dar certo – mas certifique-se de que é realmente isso que eles querem.

Stream x diário

Hoje em dia, diários de campanha são ainda mais raros do que eram poucos anos atrás. Não é difícil relacionar isso à proeminência das streams. Se você pode ver a sessão de jogo se desenrolando, não vai precisar de um resumo para entender o que aconteceu e vai poder tirar suas próprias conclusões.

Acontece que os diários escritos (ou mesmo resumos em vídeo) ainda possuem algumas vantagens de formato em relação a uma stream. Uma stream sem edição às vezes apresenta problemas técnicos que podem fazer com que o espectador perca o foco, além de demorar bem mais – assistir uma sessão de três horas é bem mais demorado que ler um resumo de mil palavras. Existem também pessoas que só não gostam de assistir vídeos online e preferem sua informação de forma escrita.

Conclusão

Depois de muito matutar sobre o tema, hoje percebo claramente que tinha uma percepção errada sobre diários de campanha. Se os que eu li no passado eram chatos, não era culpa do formato. Foi só uma questão de não saber o que fazer, o mesmo erro que eu cometi no meu próprio diário de campanha.

RPG é principalmente sobre contar a sua história. Ouvir a história dos outros, sem participar dela, é uma experiência bem diferente. Só que definitivamente não precisa ser uma experiência ruim.

Interessado no tema? O intrépido Jefferson Neves também deu umas palavras sobre o assunto aqui. Confere que tá bacana.

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Shinken
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Thiago Rosa Shinken é escritor e tradutor freelancer de RPG, já tendo trabalhado várias editoras no Brasil e nos EUA. Ele joga RPG desde os 9 anos, é fã de punk rock, nunca dispensa uma cerveja de trigo e torce pelo Fluminense.

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5 Comments

  1. Jefferson
    fevereiro 15, 16:39 Reply
    Eu não tinha ideia de vários pontos do artigo, me trouxe novidades. Curti demais!
  2. Tio Lipe
    fevereiro 15, 16:46 Reply
    Olá! Adorei o texto. Eu tenho o hábito antigo de criar diários de sessões de alguns dos meus jogos e divulgar na net. Antigamente meus diários eram quase resumos literários do que houve na sessão (e cheios de erro de grafia), mas aos poucos fui simplificando as coisas. Hoje em dia vario bastante: alguns jogos eu só resumo o principal e outros descrevo os fatos da sessão passo a passo, mas sem romancear a coisa toda. Antes, eu os escrevia por prazer e para que os jogadores lessem, mas hoje os faço mais para ter um registro do jogo e ajudar aos jogadores que faltaram se intereirem sobre o que houve, principalmente quando a periodicidade do jogo é quinzenal. Até ad Bye...
    • Shinken
      fevereiro 15, 19:08 Reply
      Às vezes é útil até pro próprio narrador, né? "Qual era o nome do prefeito mesmo...?"
  3. Joka
    fevereiro 15, 20:56 Reply
    Texto sensacional Thiago. Porém, da metade do texto pra frente, eu jurava que você ia explicar como se escreve um "replay" japonês. Ahahahah! Quando terminei fiquei com aquela sensação de "Já? Mas cadê o resto?" Eu até tentei durante um tempo escrever diários das minhas sessões. Hora romanceando, hora simplificando em resuminhos como o Tio Lipe fez. Mas acabou que era um hábito que eu desgostava de fazer a longo prazo e no fim eu me perdia. Hoje eu mantenho todas as informações entre sessões num caderninho e só. Só que eu curto muito ler "sessions reports" de jogos que estou interessado em comprar/jogar. É até uma coisa que não possuímos no Brasil. =/ Acho elas uma excelente forma de ver a dinâmica do jogo, seu contrato social e a vibe que é passada pelas regras durante a experiência de jogo.
    • Shinken
      fevereiro 15, 22:28 Reply
      Pode crer, esmiuçar mais os replays japoneses é uma boa pra um próximo post.

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