Dialect — Um RPG sobre língua e relações humanas

Dialect — Um RPG sobre língua e relações humanas

O que é Linguagem para você?

Do que ela é feita e para onde vai? Ela vai para algum lugar?

Do que uma Língua é feita? Claro, eu não estou falando da parte do corpo, não. Falo daquele subconjunto de regras dentro do que alguns estudiosos chamam de Linguagem. Falo daquele grupo de símbolos, bastante organizados, que servem para transmitir uma mensagem entre alguém e outro alguém. Eu disse mensagem, mas quis dizer cultura. Perdão pelo engano.

Ao transmitir cultura, reafirmamos nosso grupo e garantimos que ele exista além da nossa própria vivência. Fazemos esforço para continuar neste pedaço de planeta, mas temos a sorte e o privilégio que toda a nossa comunicação (símbolos e mais símbolos imbuídos de significado) vai mais além. E vai.

Até que ela morre. O que acontece quando uma Língua morre?

Dialect — a game about Language and how it dies, da Thorny Games, arrecadou $189,742 em sua campanha no Kickstarter e recentemente teve a liberação de sua versão digital para quem participou do financiamento coletivo.

Capa

O jogo segue uma premissa simples, mas profunda: como as palavras e expressões que criamos, desenvolvemos e alteramos representam pedaços de nossa cultura… e o que acontece quando seus falantes não estão mais presentes para darem continuidade. À primeira vista, pode parecer trivial, mas tendo em vista a dificuldade de tradução de certas palavras para outros idiomas, que nuance da vivência humana será perdida quando ninguém mais souber o que significa a palavra “saudade”?

É um jogo sobre uma comunidade isolada, sua língua e o que significa perder aquela língua. Indicado para 3 a 5 jogadores, com duração entre 3 a 4 horas. É rapidinho.

Em Dialect não há rolagem de dados. Define-se a si mesmo como story game e também não possui uma figura central de autoridade e resolução de conflitos. No entanto, possui um Facilitador, alguém com o maior domínio das regras e liberdade para poder auxiliar os demais na mesa. O jogo utiliza de cartas, chamado Language Deck, caneta e alguns pedaços de papel para anotação.


Regras

De forma geral, as regras são as seguintes:

1. Os participantes da mesa escolhem um pano de fundo, uma ambientação sobre a qual o jogo será construído. Todas as ambientações precisam ser sobre uma comunidade isolada com um futuro dramático que está por vir. Suas peculiaridades e tramas são definidas por Aspectos. Alguns exemplos de comunidades: um grupo de exploradores em marte que perdeu a comunicação com a Terra logo após aterrissarem no planeta vermelho; um grupo de pessoas perdidas em uma floresta densa após um acidente de avião; uma sociedade de robôs-coletores em um mundo sem seus mestres humanos para programarem novas funções.

2. Cada jogo possui 3 eras. Cada participante seleciona (preferencialmente é feito um sorteio) um Arquétipo do Archetype Deck. Representará seu personagem, que possui uma função durante todo o jogo.

Arquétipo, com sua descrição de função [topo] e características relevantes à construção da comunidade [parte de baixo]

3. A cada Era, o participante da vez baixa uma carta de sua mão, buscando uma conexão com algum dos Aspectos construídos. Esta carta veio previamente do Language Deck, distribuído no início da primeira Era. As cartas representam conceitos comuns dentro de uma sociedade, como “amizade”, “tecnologia”, “o passado”, “tristeza”, “morte”.

4. Então, ele constrói uma palavra ou expressão para a conexão encontrada entre a carta baixada e o Aspecto escolhido. Aqui está o primeiro brilho do jogo, mas retorno a ele logo mais abaixo.

5. É feita uma conversa entre alguns envolvidos com o Aspecto, com interpretação e aprofundamento da história do grupo. Não só isso, mas este momento serve também para “dar corpo” à expressão e mostrar em qual situação ela é aplicada.

6. Após cada participante ter sua vez, ele saca uma carta nova. Após todo o grupo ter tido sua vez, ele avança de Era e o ciclo se repete.

 

 


Sociedade e Cultura em Dialect

O livro conta com alguns exemplos, para facilitar a compreensão. Vamos pensar na comunidade isolada em Marte. Ela é feita de exploradores, que passam longas jornadas em veículos de extração de recursos na superfície do planeta. Há uma comunicação rudimentar entre o “caminhoneiro” e a pessoa da torre de controle. Supondo que um dos jogadores tenha sacado a carta “Amizade” durante o seu turno, ele pode criar uma nova palavra para definir a relação entre a pessoa que fica no veículo e aquela que fica na torre. Afinal, é uma comunicação constante, com dependência e confiança. Não é um tipo de amizade comum.

Entra-se em um consenso e cria-se uma palavra nova. Mas como criar uma palavra ou expressão? Dialect conta com uma seção de explicação e exemplos de radicais, prefixos e sufixos, sobre como formar e deformar palavras. Tudo de forma leve, didática e real. Foram chamados alguns linguistas e consultados especialistas para dar subsídio com base no que de fato ocorre na experiência humana.

Que tal pensarmos nessa palavra com base em algo comum do cotidiano dessa relação? A conversa ocorre toda pelo rádio, certo? Vamos pensar que esse rádio gera algum chiado no início e no fim da transmissão. Algo como “tschhh”. Os jogadores podem utilizar essa informação como lei de formação da palavra, e gerarem algo como “tchita”. Esta palavra, então, representa amizade (“E aí, tchita! Será que hoje eu consigo extrair alguma coisa daquele buraco no setor Delta? Fica de olho nessa leitura do radar, hein. Tô contando contigo!“). Mas não uma amizade comum, é a relação de confiança e dependência quase cega entre duas pessoas que trabalham juntas e convivem em uma sociedade.

Como eu disse, é aqui que Dialect brilha. Não foi feita apenas uma palavra, e sim uma experiência de vida.

Conforme os turnos vão sendo feitos, novas cartas são sacadas e baixadas para o jogo. Novas palavras e expressões são geradas, vinculadas a Aspectos e outras características também em evolução da comunidade. E as Eras vão passando. Palavras podem ser revistas, como reflexo da mudança do tempo (vossa mercê, vosmecê, vancê, você, vc) e até mesmo substituídas.

O fim

O segundo ponto onde Dialect brilha é que, ao final do jogo, a comunidade encontra seu destino. Seja ele qual for, a afeta por inteiro. No fim, a comunidade como foi pensada desaparece (para algo maior? menor? diferente?) e aos participantes da mesa restam apenas as lembranças de uma cultura que não existe mais.

Ao final da sessão, os participantes são os únicos falantes daquela língua.

Dialect foge a alguns conceitos de jogos e, à primeira vista, pode não parecer tão estimulante quanto realmente é. Assim como outros RPGs, pode gerar profunda reflexão sobre a importância da comunicação (e as escolhas que fazemos através dela) em nossas vidas. Vale a pena dar uma olhada.

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About author

Rafael "Psicopompo" Cruz
Rafael "Psicopompo" Cruz 8 posts

Navegante de realidades, uma história por vez. Está envolvido com o RPG desde os 11 anos. Costuma narrar muito mais que jogar, e coleciona personagens que só estão na sua cabeça. Vive com objetivo de mostrar caminhos e conectar pessoas. Acredita que a vida é um contar histórias sem fim. Talvez sem começo também.

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6 Comments

  1. MetallFlavio
    Fevereiro 03, 19:22 Reply
    Nuuuusssss que top! (pensa só na quantidade de informações sobre cultura e identidade que eu coloquei nessa sentença) Esse jogo realmente está muito fooooda! Gostei tanto da iniciativa dos autores que já estou com ele comprado. A ideia de mostrar pra pessoas não linguistas a importância da evolução e mudança nas línguas, do surgimento de novas palavras e significados e como isso não degrada as línguas, mas sim acrescenta novas possibilidades a ela. Eu tô tão entusiasmado com esse jogo que nem consigo falar mais nada! Boa parte da minha vida como linguista tá representada nele e isso me deixa tão excitado por ter a oportunidade de ver isso numa mesa. Valeu por essa resenha e por me mostrar esse jogo!
    • Rafael "Psicopompo" Cruz
      Fevereiro 03, 23:59 Reply
      O jogo é ótimo, MetalFlavio. A Thorny Games tem outros jogos também baseados em linguagem. Eu infelizmente não fiz o apoio que viria com mais um jogo, por algun$ motivo$ aí e tal, mas pelo que soube são incríveis. Sign, sobre linguagem de sinais, e Xenolanguage, sobre comunicação com alienígenas. Eu gostei muito da pegada do Dialect porque ele é didático. Muito mesmo. Tem até capítulo sobre radical e afixo! E mais, acho que ele mostra uma experiência, cara. Como as palavras passam mais do que apenas o significado delas. Vale muito, muito mesmo. Abração
      • MetallFlavio
        Fevereiro 05, 13:47 Reply
        Sim! Concordo com tudo! Estou com a minha cópia pdf já e os capítulos dedicados à parte linguística da mecânica são muito bons. Fiquei com muita vontade de comprar o Sign tbm, mas a grana tá curta hehehe. Essa questão de as palavras revelam muito mais é fenomenal, pq é isso que é a língua. Mudança linguística é um fenômeno constante, todas as línguas mudam ao longo do tempo e dentro das diferentes comunidades de falantes, e ver isso abordado em um jogo é maravilhoso. Também foi ótima a maneira como eles abordaram essa questão de a “língua morrer”, pq línguas só morrem da maneira como acontece no jogo: quando a comunidade de falantes é totalmente extinta. Como é o caso com algumas línguas indígenas do Brasil que estão prestes a morrer por só terem mais um ou dois falantes idosos. Se essa comunidade onde o jogo se passa fosse continuar, essa língua continuaria com suas mudanças e acréscimos até se tornar independente da(s) língua(s) base(s) que a formaram, mas não morreria. Só sei que logo vou devorar o livro e começar a pensar em uma mesa. Valeu por ter trazido esse jogo pra minha vida!
  2. Pedro O.
    Fevereiro 04, 13:41 Reply
    esse jogo parece uma dessas gemas preciosas que só aparecem de tempos em tempos. Falando em língua, como você avalia a dependência dela? Quão difícil de jogar com outras pessoas que tem um pouco de dificuldade com o inglês? abs
    • Rafael "Psicopompo" Cruz
      Fevereiro 04, 15:27 Reply
      "Uma dessas gemas preciosas que só aparecem de tempos em tempos.", vou guardar essa frase pra próxima vez em que falar do jogo, porque eu não poderia concordar mais com isso. Sobre a leitura e entendimento do jogo: há uma figura de facilitador. Então acredito que ele pode ter algum domínio sobre a língua inglesa, sim, para entender o jogo. O curioso é que tanto na campanha quanto nas novidades dela, o texto parecia ser rebuscado (com ausência de palavras corriqueiras comuns), então eu tive algum receio do texto final do jogo em si ser pesado. Felizmente não é. É fácil, simples e didático. Porém há a questão das cartas, que não estão num inglês difícil. Com algum esforço e preparação, em posso das cartas, é possível traduzi-las. Não é um texto longo, mesmo. Com um pouco mais de sorte, a gente consegue trazer esse jogo para português. ;)

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