Déloyal

Déloyal

Um jogo narrativo sobre Liberdade e Resistência

Antes de falar especificamente sobre Déloyal, peço licença para divagar sobre a importância da sua temática. Quando eu era mais novo, na época que comecei a jogar RPG, os quadrinhos de super-heróis que eu lia passavam por um momento de transformação. Heróis que antes simplesmente faziam o bem ou caíam naquela vaga categoria de “combatem o crime” se tornaram muito mais violentos. Era a ressaca da Era de Ferro, iniciada com Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Se um dia Alan Moore quis deixar bem claro que o nosso mundo era um lugar cinza demais para os heróis idealizados que estavam nas páginas dos quadrinhos, diversos autores que vieram depois dele só entenderam que ser violento, ser brutal e não se importar em fazer o bem eram coisas legais. Eu vivi essa época. Eu vi os Novos Mutantes se tornarem uma força paramilitar liderada por um cara que adorava um trabucão. Eu vi Batman ser substituído por uma paródia do que acontecia ao redor, tentando incitar os leitores a questionarem. Eu presenciei a derrocada do conceito do herói. Para a minha geração, essa coisa de heroísmo passou a soar como coisa de criança. O que importava mesmo era se tinha sangue ou se não tinha.

Anos passaram, o mercado de quadrinhos mudou, eu mudei, o resto da minha geração mudou. Os quadrinhos de super-heróis modernos parecem ter encontrado um bom meio termo entre o idealizado e o familiar; ainda é o mundo que você vê da janela da sua casa, mas geralmente é um pouco melhor. Sim, tem problemas sérios, perigos cósmicos, mas tem gente disposta (e capaz) a resolver esses problemas. Essa noção de que não importa o quão complicado seja o problema a gente pode dar um jeito é uma coisa muito bonita. É uma forma de esperança, de não se dobrar diante da adversidade, já que você talvez não possa fazer a diferença, mas alguém pode. Melhor que isso só tomar as rédeas do próprio destino e fazer a diferença por conta própria; não só ter esperança, mas ser a esperança de alguém. Eu não sabia disso lá nos anos 90 quando eu gostava mais do Aranha Escarlate que do Homem-Aranha só porque o Escarlate era mais violento, mas isso sempre foi o que me atraiu em histórias de super-heróis. Acompanhar de perto alguém que faz a diferença. Entrar na cabeça desse alguém.

RPG é um passo adiante disso. A gente não precisa só acompanhar de perto. A gente não precisa só ter esperança. A gente pode literalmente ser o herói. E se você olha a maior parte dos jogos, é isso que eles prometem pra você. A quantidade de vezes que chamam os PJs de heróis em D&D é até difícil de contar. É quase a mesma coisa para todos os outros jogos de fantasia medieval, tirando os da OSR, que entendem melhor sobre o que são – matar gente, ficar mais forte, juntar tesouro, repetir. Ah, você pode ter um objetivo maior em D&D, sim. Você pode ser um herói… mas também pode não ser. Provavelmente você não vai ser. E não tem nada de errado com isso, ninguém tem que ser heroico o tempo todo (nem os paladinos), mas aí o jogo devia parar de chamar você de herói. Eu gosto muito de vários jogos mais cinzentos, como a vida nas sombras de Shadowrun ou a luta pela sobrevivência em Mutant: Ano Zero. Acontece que até nesses jogos mais cinzentos eu acabo tendo uma quedinha por esse conceito de heroísmo. E isso é 100% culpa minha. Por exemplo, meus shadowrunners não querem só grana. Quer dizer, ele querem grana, senão não era Shadowrun, mas eles não querem grana para eles. Querem grana pra alguma coisa maior – o meu shadowrunner favorito era um padre, Rico, que sustentava um orfanato/hospital para metahumanos com suas runs. Enfim, pessoalmente, eu curto muito esse lance de bancar o herói e acho muito chato quando um jogo afirma que essa é a sua premissa mas não é verdade.

“OK, Shinken, eu tive paciência. Mas já foram três parágrafos e nada de Déloyal!” Eu entendo sua frustração, caro interlocutor hipotético. Porém, toda essa introdução não poderia ter mais a ver com Déloyal. Atualmente, o único jogo em publicação no Brasil que põe seus personagens no papel inequívoco de heróis (ou, pelo menos, na minha concepção de herói) é Jadepunk. O livro é extremamente sincero ao dizer que o Governador está errado e que só quem pode resolver essa treta é a Jianghu e que se você discorda, cara, é melhor procurar outro jogo. Mutantes & Malfeitores trata essa noção apenas como pano de fundo, aquele vago “eles combatem o crime”, aquele heroísmo sem consequências nem sacrifício da Era de Prata. Outros jogos ainda parecem se orgulhar por não tratarem dos mocinhos, com um furor que às vezes me faz lembrar de filmes do Zack Snyder. Acontece que Jadepunk não está mais sozinho. Deloyal é um jogo sobre heróis ainda mais humanos que a Jianghu. Sobre gente como eu e você que teve a chance de fazer a diferença e decidiu mergulhar de cabeça, não por serem pessoas necessariamente melhores que os outros, mas por não terem escolha. Se eles não derem a cara a tapa, ninguém vai dar. Sem kung-fu, sem pedras místicas, sem super-poderes, a Resistência precisa derrotar um inimigo invencível.

O CENÁRIO

A temática de Déloyal é a resistência contra um invasor opressor.

No cenário oficial, Déloyal é uma Paris idealizada nos anos 40. A ocupação da Cidade Luz pelas forças nazistas é um marco na nossa cultura, influenciando do cinema à alta costura. A capital de um país ocupado, Déloyal representa uma luz na escuridão somente por resistir. A cidade pode se tornar o estopim da derrocada dos invasores, não somente um símbolo de resistência, mas um símbolo de vitória.

Um capítulo inteiro é dedicado a dar vida a Déloyal, uma daquelas raras cidades que também são personagens, como a Gotham das histórias do Batman. A cidade é muito bem descrita, detalhando não só como ela funciona é mas também como chegou a ser o que é, tratando de fatores como religião, mídia, ciência, transportes e cultura. Todas essas questões são tratadas como sugestões, permitindo que os jogadores alterem completamente o cenário (mais sobre isso adiante).

Durante a descrição, várias perguntas são feitas ao grupo para ambientar como é sua Déloyal, quem são os libertadores e quem são os invasores. Esse processo é conduzido de forma rápida, didática e orgânica na estrutura do livro. Algumas respostas prontas são oferecidas como exemplo, explicando como funcionariam várias cidades possíveis, desde uma sitiada por análogos nazistas quanto uma infestada de zumbis (que têm muita fome, como o texto não o permitirá esquecer).

O foco de Déloyal é emular o gênero pulp. Porém, é muito bacana ver como a galera do Lampião abordou o pulp sob um ponto de vista do século XXI.. Diferente de outros jogos pulp, como Espírito do Século, Déloyal preza pelas nossas sensibilidades modernas, provando que o gênero não precisa estar atrelado a valores preconceituosos para manter seu carisma e impacto.

Apesar dessa forte caracterização de Déloyal, o livro abre espaço para muita customização da cidade, deslocando-a no tempo e mesmo criando cenários completamente diferentes. Vários cenários serão lançados usando o sistema L’Aventure e proporcionando formas alternativas de jogar Déloyal, inclusive uma adaptação oficial do Lampião para jogar com os animais da Green Hill Zone se opondo ao Doutor Robotnik. Embora isso seja extremamente interessante pelo leque de opções que abre, isso dilui a importância do cenário oficial e da integração com as mecânicas-padrão, que são voltadas para esse cenário oficial. Quase como se fosse uma falha programada, a descrição do cenário peca por ser livre demais. Até em seus defeitos Déloyal preza pela liberdade.

NÓS X ELES?

Existem poucas coisas mais perigosas em larga escala que a polarização. Quando você começa a pensar no outro como inimigo, quando começa a desumanizá-lo, geralmente as coisas não terminam bem. Déloyal usa uma barra lateral para lembrar que não é esse o objetivo do jogo. É uma dica simples, uma dica que sinceramente devia aparecer em mais jogos: quando você perceber que está tomando uma ação motivada por ódio, pare.

É muito fácil a gente mergulhar de cabeça no mundo de um jogo, especialmente um mundo tão próximo do nosso como Déloyal, para só depois perceber que tomamos atitudes extremamente repreensíveis. Como aquela vez em que você matou bebês de dragão só por causa da XP, sabe? Ah, é só um jogo, ah, a gente não precisa se preocupar tanto, ah, orc bom é orc morto. Pare e pense, né? Vai que ajuda.

deloyal-libertadoresO SISTEMA

O sistema de Déloyal se chama L’Aventure. Como explicitado pelo próprio nome, ele tem um foco em aventura, em push to action, o que o torna extremamente adequado ao gênero pulp. O funcionamento é simples:

Os personagens não têm atributos, somente perícias. Essas perícias possuem minúcias, que funcionam de forma parecida com os aspectos de Fate. Quando você precisa fazer um teste, você lança o dado da sua perícia e usa o resultado. Porém, se você está sob boa fortuna (por exemplo, se a ação se encaixa na sua minúcia) você rola dois dados e fica com o maior resultado. O inverso pode acontecer se a fortuna não sorrir para você rolando dois dados e ficando com o pior resultado. Os níveis de sucesso são muito parecidos com Dungeon World e outros jogos da Apocalypse Engine: 1-3 é uma falha, 4 a 6 é um sucesso parcial, 7 a 9 é um sucesso e 10+ é um grande sucesso.

Déloyal tem dois modos de jogo: em chamas e em cinzas. O modo em chamas é quando os libertadores atuam ativamente pela revolução, quando estão na ofensiva e tentam colocar em prática seus planos. O modo em cinzas é quando os libertadores precisam viver a sua vida dupla, se escondendo dos invasores, lidando com sua retribuição.

A mecânica mais inovadora de Déloyal é o Dado do Triunfo. Como os personagens dos jogadores não são soldados profissionais, suas ações podem ou não ter efeitos positivos, o que é determinado lançando o Dado de Triundo. Ele começa em d4 e vai aumentando de tamanho conforme pequenas metas são cumpridas dentro do jogo. Dessa forma, todas as ações dentro do jogo influenciam no resultado definitivo dos esforços dos libertadores.

O sistema L’Aventure é  funcional e muito amarrado ao que se propõe. Sua descrição é extremamente didática e muito minuciosa, sendo muito difícil ficar com dúvidas. O único problema é uma tentativa de afastar o sistema de Déloyal em si, talvez para facilitar o uso em próximos jogos ou hacks. Isso faz em alguns pontos que o sistema soe destoante do cenário, apesar de eles combinarem perfeitamente bem.

A ARTE

Toda a parte gráfica do livro fica nas mãos do mestre Bruno Prosaiko, responsável por Desafiantes e BIRL. Como sempre, ele não desaponta. Déloyal tem uma identidade visual muito forte, começando pela capa de tirar o fôlego, passando pela iconografia da liberdade e chegando nas ilustrações que beiram o fotorrealismo. Difícil acreditar que é o mesmo artista responsável pelas loucuras psicodélicas de BIRL, mas é um estilo próximo daquele usado em Desafiantes. Mais uma prova da incrível abrangência do talento de Bruno Prosaiko.

O livro digital tem um design dinâmico e limpo, muito prático para ser em e-readers. As seções são bem organizadas e as ilustrações são excelentes. O único pecado do livro digital é a falta de bookmarks, mas isso é uma coisa que realmente faz falta.

CONCLUSÃO

Déloyal é um jogo necessário para o RPG nacional. Ele nos permite jogar com heróis de verdade, o tipo de heróis que não se acham heróis. A arte, a diagramação e o texto se alinham perfeitamente para criar o clima adequado a esse tipo de jogo. O cenário oficial é excelente e existem opções para crescer além desse cenário, embora essas opções acabem diminuindo o impacto do cenário por si só. A cereja no bolo eu guardei para o final: só existe um nível de apoio para Déloyal. Todos são iguais no financiamento, da mesma forma que todos são iguais entre os Libertadores. Tanta dedicação a um tema é um feito raro e louvável.

Assim que você realiza seu apoio no projeto, você recebe o livro digital. Ele tem 216 páginas em preto-e-branco com capa colorida. Compareça ao Catarse para se juntar aos libertadores e expulsar os invasores de nossa linda cidade.

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About author

Shinken
Shinken 262 posts

Thiago Rosa Shinken é escritor e tradutor freelancer de RPG, já tendo trabalhado várias editoras no Brasil e nos EUA. Ele joga RPG desde os 9 anos, é fã de punk rock, nunca dispensa uma cerveja de trigo e torce pelo Fluminense.

Review do editor

Cenário
4/5
Sistema
4.5/5
Emulação de Gênero
5/5
Apresentação
4.5/5
Disponibilidade
5/5

4.6

Good
4.6

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4 Comments

  1. Jb
    outubro 03, 16:15 Reply
    Thiago, por favor revisa o texto. Tem algumas coisas esquisitas, tipo "A cerveja no bolo" e idéias inacabadas. Agradeceria se o texto tivesse formatação de parágrafos, é visualmente cansativo o texto todo reto, passa uma sensação de sem fim.
  2. Shinken
    outubro 03, 16:22 Reply
    Revisando agora, Jb! Valeu pelo toque.
  3. Cezar
    outubro 03, 16:53 Reply
    Excelente review, já me conquistou para o financiamento! Creio apenas que o texto precise de uma leve revisão, há algumas frases soltas. Mas não diminui em nada a qualidade do trabalho. Parabéns!

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