穴と竜: conheça o D&D japonês

穴と竜: conheça o D&D japonês

Não, essa imagem de capa do artigo não é de Lodoss

Não são muitos os japoneses que jogam RPG, mas os que jogam são muito dedicados. Eles têm interesse em conteúdos diferentes de RPG, como os replays, que só existem por lá. Eles produzem jogos muito diferentes do que é produzido na época, como Tenra Bansho Zero. A gênese da paixão, porém, é a mesma que em todo o resto do mundo: as edições originais de D&D. Vamos conhecer um pouco mais sobre o D&D japonês.

Qual Edição?

Dependendo do seu ponto de vista, a Rules Cyclopedia pode ser parte da primeira edição de D&D ou não. A primeira caixa de Dungeons & Dragons , aquela com a arte copiada de uma revista do Dr. Estranho, é de 1974. Junto com alguns suplementos, ela constitui o D&D original, ou OD&D como costuma ser chamado.

A partir de 1977, a TSR passou a contar com duas linhas de Dungeons & Dragons. Basic Dungeons & Dragons (mais próxima do OD&D) e Advanced Dungeons & Dragons. Basic continuou sendo publicado até 1991, quando foi lançada a Rules Cyclopedia. Esse material era uma compilação em volume único do material publicado desde 77 e teoricamente encerraria a linha Basic. Porém, ela acabou sendo prorrogada com Wrath of the Immortals, de 1992.

A contagem de edições como estamos acostumados, da terceira, quarta e quinta edições, são referentes às edições do Advanced Dungeons & Dragons.

Período Pré-Tradução

Da mesma forma como nós tivemos a Geração Xerox, os japoneses passaram por um período em que somente podiam jogar D&D importando os produtos originais e aprendendo a língua inglesa. A cultura japonesa estigmatiza a devoção a um hobby, relacionando isso a um estigma social; torna a pessoa num otaku. Imagine o efeito social de gastar dezenas de milhares de ienes importando caixas de jogos em língua estrangeira. Imagine que esse jogo era vítimas de duras críticas fundamentalistas em seu país de origem. Até 1985, os jogadores japoneses se reuniam em grupos pequenos grupos isolados para jogar. Cada grupo de jogo era uma ilha.

A era Shinwa

Em 1985, a editora Shinwa começou a traduzir D&D oficialmente em japonês.

Como também aconteceu no Brasil, erros de tradução desse período se tornaram piadas internas queridas dos jogadores. “Peças de plutônio” em vez de “peças de platina”. “Corselete de reggae” em vez de “corselete de couro” (ゲ→ザ; um erro bastante fácil de se cometer).

Também foi nessa época que os jogadores de D&D começaram a compartilhar seu hobby com o mundo. Kazushi Hagiwara, o autor de Bastard!!, incluiu um beholder em uma de suas histórias. Infelizmente, foi na mesma época que problemas de direitos autorais começaram a aparecer. Quando o volume compilado foi lançado, Hagiwara teve que dar pernas ao monstro e chamá-lo de Suzuki Dogezaemon para diferenciá-lo. Suzuki supostamente era o nome do editor de Bastard!! e dogeza é um gesto formal de desculpas. Considerando a quantidade de bandas de metal citadas na obra, o beholder deve ter sido o menor dos problemas de direitos autorais com os quais ele teve de lidar.

Suzuki Dogezamon

Com as traduções oficiais, os replays (diários de campanha) ficaram casa vez mais populares. Entre eles, o replay mais popular se tornou Record of Lodoss War. Começou publicado pelo Group SNE na revista Comptiq. Depois, o Mestre da campanha, Ryo Mizuno, a converteu em romances de alta fantasia. Lodoss rendeu até mesmo seu próprio RPG, Record of Lodoss War Companion, em 1989. A partir daí vieram mangás, animes, romances e videogames formando uma imensa obra multimídia.

Resultado de imagem para record of lodoss war

Pouco depois desse lançamento, a Shinwa cometeu um grande erro: imaginou que os jogadores estariam dispostos a migrar para Advanced Dungeons & Dragons. Sem conseguir se manter, a Shinwa perdeu a licença.

A era MediaWorks

A licença passou para outra empresa, a MediaWorks. Encabeçando a equipe de localização estava Hitoshi Yasuda do Group SNE.

Os livros da Rules Cyclopedia foram publicados nessa época, divididos nos já tradicionais três volumes em vez do volume único americano. Além disso, da mesma forma que os americanos tinham o costume de alterar obras japonesas para serem melhores aceitas por seu público (como Macross/Robotech), os japoneses alteraram todas as ilustrações para o seu próprio estilo. É especialmente interessante como as ilustrações se parecem com  o estilo de arte de Lodoss, como o fechamento de um ciclo.

Da esquerda para a direita: Livro dos Monstros, Livro do Mestre, Livro do Jogador

Esses livros têm formato B6, o mesmo formato tradicional dos tankoubon (mangás encadernados). Também como os tankoubon, eles começam com pequenas seções coloridas e depois são em preto e branco.

Lindos e claramente feitos de fãs para fãs, os livros da MediaWorks tinham tudo para dar certo. Mesmo os guerreiros e magos de D&D não podiam lidar com um inimigo terrível, porém – a contração do mercado japonês de jogos de mesa (especialmente RPGs) do final dos anos 90. Hoje atribui-se o fenômeno ao estouro de uma bolha e competição com videogames.

A era Hobby Japan

Com o lançamento da terceira edição de D&D, a empresa Hobby Japan conseguiu a licença e tem lançado o jogo no país desde então. Embora ainda lide com o mesmo tipo de crítica de tradução da era Shinwa (especialmente na conversão de 3.0 para 3.5), a empresa permanece firme forte localizando o jogo.

Em um mundo bem mais globalizado, os livros não recebem mais alterações para se adequar à realidade japonesa. As ilustrações ainda são as mesmas e os livros se parecem muito com o que os americanos jogam e também com o que nós jogamos. Sim, eles também sofrem com imensos atrasos e escassez de suplementos. Muito poucos dos livros da 3.0 e 3.5 foram lançados em japonês, embora os lançamentos para a 4e tenham sido mais constantes.

A Hobby Japan foi inclusive a primeira empresa licenciada a lançar D&D a se posicionar sobre a (falta de) tradução da 5e. Felizmente, esse é um problema do passado (para os japoneses, pelo menos).

E se eu quiser jogar D&D em japonês?

Quer jogar D&D em japonês? Você pode começar comprando os livros da Hobby Japan. Você muito provavelmente vai precisar que pelo menos o Mestre seja fluente nas duas línguas (e de preferência em inglês também), mas é uma excelente forma de praticar o idioma. Para ter uma ideia, pode começar com essa ficha de D&D 3.5 em japonês.

Fontes: mystara.thorf.co.uk, No Sword, Spell of Seven, Japanator

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Thiago Rosa Shinken é escritor e tradutor freelancer de RPG, já tendo trabalhado várias editoras no Brasil e nos EUA. Ele joga RPG desde os 9 anos, é fã de punk rock, nunca dispensa uma cerveja de trigo e torce pelo Fluminense.

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5 Comments

  1. Archrust
    maio 25, 17:10 Reply
    Essa ficha japonesa parece ser mais completa que a ocidental.
  2. Pedro
    maio 25, 23:06 Reply
    Ótima matéria, muito interessante conhecer o nosso hobby do outro lado do mundo.
  3. Antonio
    maio 26, 15:23 Reply
    As ilustrações japonesas da segunda edição eram maravilhosas. Quem dera tivesse uma galeria só pra isso.
  4. abssyntho
    maio 27, 12:59 Reply
    É esse o tipo de artigo que me dá vontade de juntar os amigos de infância pra voltar a jogar nossa boa e velha campanha de D&D que começou em 1998. Ê saudade!
  5. Bruno Baère
    maio 27, 21:25 Reply
    Essa adaptação pro mercado japonês pareceu muito bem acertada. Fico imaginando como seriam outras adaptações considerando a cultura local, a diversidade de ilustrações e da própria apresentação dos livros.

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